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20160604

Uma luz antiga



Essas estátuas sem cabeça, sem braços, esses troncos existindo só por si não exercem especial fascínio sobre uma quantidade considerável de indivíduos que visitam em geral os museus e, mais raramente, as ruínas. Pelo contrário, essa mutilação impede-os de ver. Creio não exagerar se disser que constituem a maioria.

Que nos faz então – incluo-me nesse número – permanecer fascinados face a um torso quebrado de um qualquer atleta clássico desconhecido, contemplar sem fadiga essas obras, em certa medida privadas de ser, de sentido?

Por uma curiosa simbiose, somos de certa forma semelhantes a essas estátuas abandonadas pelos deuses. É de facto o seu destino aquilo que melhor entendemos e sentimos.
De algum modo elas são à sua maneira uma espécie de espelhos. Para a maioria, contudo, elas não refletem imagem alguma. São apenas estátuas partidas.


(excerto de texto antigo, sem alterações) 

20150617

Música para aeroportos



Eu não tenho ouvido para a música. Limito-me a fechar os olhos e ouvi-la. Não me recordo de uma única referência numa pauta ou frase musical referindo este órgão para semelhante coisa.
Saber fechar os olhos não estando a dormir é uma arte, isso posso assegurar, disse-te.
Há uma outra coisa fantástica que é nunca se falar daquilo que não se sabe.
Nessa altura tive a necessidade de te explicar porque passava tanto tempo a ouvir Brian Eno e a olhar para o mar, calado.

Recordo-me de nos termos rido porque era música “For Airports”. O que nos fez rir foi esta conversa ter ocorrido nas falésias da costa vicentina e eu ter dito “precisamente”, com um ar absoluto de quem sabe do que fala.
Ainda devo ter acrescentado, mas um pouco mais tarde, o Verão chega sempre de repente e parte rápido, como um punhal, ou uma traição. Sei do que falo. Fiz as contas.

“Aproxima-se a época em que os corpos, até chegar Setembro, começam a entrar dentro das histórias que vivem ou, por causa das marés, criam dentro de si. Mas isso é indiferente, porque o resultado final é idêntico.” Tenho quase a certeza de que foi mais ou menos isto que me respondeste. Ponho entre aspas porque nunca costumavas falar assim.

Há noites em que não conseguimos dormir na nossa cama. A razão, tirando um ou outro pormenor técnico que tem a ver com molas e colchões, é simples. A nossa cama é o único móvel fixo em casa. Estou cada vez mais convencida de que se dormíssemos de outra forma não constituía problema de maior partir.
Isso disseste-me, e tenho a certeza porque fecho os olhos e sei que nunca mais nos voltámos a ver. Volto a ouvir a «música para aeroportos» e tenho a certeza. Fecho os olhos. Não consigo adormecer e a única coisa que me vem com clareza à cabeça é a ideia de a cama ser sempre a mesma.



20150616

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Normalmente hesito entre Proust, os espaços abertos e coisa nenhuma. Regra geral prefiro coisa nenhuma.
Agora, com esta espécie de cansaço, escolher é-me mais difícil ainda.
Não me apetece nem palavras nem sons,  mesmo sob a forma de canto.
Música barroca instrumental, ou vagas, era o que me convinha. Tudo o resto me parece apenas barulho.
O maior estrago de todos é saber que isso me é impossível.
No fundo desconfio que possa haver uma estúpida ideia de imortalidade por debaixo da capa da minha preguiça.



20150206

Do tempo


Medeia algum tempo entre a descoberta fortuita de algumas estátuas encontradas por um camponês italiano em 1748, e os trabalhos que o Professor, arqueólogo e helenista Baldassare Conticello executou já no século passado pondo a descoberto a antiga cidade da Câmpania, de cerca de trinta mil habitantes, lugar de prazer e recreio para os romanos ricos.
Entre outras coisas, as escavações puseram a descoberto os bordéis do Imperador. Com efeito, para além da evidência dos seus frescos, a erupção do Vesúvio, em 79, surpreendeu alguns dos seus clientes em plena erecção.

Li, algures, que a queda de Pompeia se ficou a dever à ira divina que, assim, com o fogo e as cinzas, destruiu esse lugar de luxúria e devassidão. Esta hipótese, mesmo que piedosa, apresenta-se-me naturalmente inverosímil. Esta dedução devo-a quer à análise aos frescos de Pompeia, quer à concepção que dos deuses possuo, dos deuses romanos em particular.

Não é isso no entanto o que curiosamente me interessa. Antes, e talvez uma vez mais o tempo, o esquecimento, sobretudo essa espécie de ferida da memória e uma certa sensação de tristeza, uma triste calma provocada pela beleza, e por essa mesma ferida desencadeada.

Existe uma relação óbvia entre o tempo e o esquecimento, mas não nessa acepção vulgar que atribuímos a ambas as palavras. Suponho mesmo que é o esquecimento que produz o tempo, e não o seu contrário.
Os frescos de Pompeia deveriam assim a sua inesgotável perturbação e beleza a esse estranho fenómeno e ás condições em que ocorreu a destruição da cidade. O castigo divino, mesmo que se tivesse verificado, não teria influência alguma.



20141102

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Claro que quando repetes que se não tiveres o cd, sei lá qual é do raio dos standards do Keith Jarrett sem o qual dizes que não consegues conduzir até lá, e é um funeral, ou uma inauguração, ou um almoço de família, eu sei que é verdade mas não me interessa. Deixei de argumentar. Já nem me apetece irritar-te com a história do homem, o pianista, guinchar, disse M com a voz um pouco mais rouca do que o habitual.
J. não disse nada. Já há muito tempo que não encontrava esse disco. Acho que tinha mesmo desistido de o procurar.  Deixara de qualquer modo de ir onde quer que fosse muito antes de o homem ter composto a obra. Estupidamente esta ideia fê-lo envaidecer-se subitamente, como se houvesse qualquer razão para tal.





20141023

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Nesse sítio ouviam-se pouquíssimas palavras.
As pessoas que arriscavam a vida descendo as falésias para apanhar pequenos animais batidos pelas vagas e com sabor a mar falavam pouco.
 J, cujo sonho era o silêncio, encontrou nesta atividade uma salvação temporária. Até encontrar S que tinha uma casa de verão na praia e um corpo de sereia sem a parte de peixe e uma biblioteca.
Possuía igualmente um numero imenso de discos de vinil embora não existisse qualquer gira discos ou aparelhagem mais atual. Foi este facto, por mais estranho que pareça, que o levou a ficar.
 Depois começou a escrever uma história cujos parágrafos se estenderam por todo esse inverno.
 Basicamente tinha a ver com o mar. Se a tivesse continuado a coisa desenvolver-se-ia no sentido de os livros irem perdendo letras e no seu lugar se encontrarem algas e alterações deixadas pelas marés. Ao abri-los ouvia-se apenas ao longe o som de duas pessoas a falarem, tapadas pelas maresias e o som suave e ritmado das vagas.



20140918

As palavras



E apetecia-te morrer. Claro que é uma palavra da qual não sabes nada. Invocar uma palavra em vão e com desconhecimento é um ato leviano.
Sei para onde estavas a olhar quando o disseste. Conheço o poder dessas falésias como conheço o poder de uma cadeira virada para a planície sob um alpendre, a sul.
Invocar palavras em vão é um ato insensato sobretudo porque nunca saberemos que raio de efeitos podem provocar esses textos em quem os lê.

Tinhas obrigação de saber que quem nos ama ouve essas palavras como se as lesse.  

20140829

Talvez um pouco sobre Setembro também


Na realidade preciso de coisas extremas e imensas.
Se quiser ser rigoroso, e uma vez que impus a mim mesmo referir apenas duas, devo então mencionar as gymnopédies e uma semente que consegui que crescesse, praticamente criada à mão num vaso que levei para onde ia, ao longo de umas loucas férias na costa vicentina. São coisas destas a que me refiro.
Das que mais me impressionaram até hoje foi o silêncio e a leitura. Se tivesse que escolher apenas uma escolhia o silêncio da leitura.
Escrever é uma matéria que não cabe aqui. Tal como o silêncio, assunto que me interessa muito.
Ai sim… dizes-me. Disseste que ias falar sobre faróis por causa daquela fotografia que me intriga.
Mas é precisamente sobre isso que estive a escrever, respondo, com a cara de quem confia que uma mão cheia de perceves uma cerveja e um beijo o podem salvar, para além da convicção de que esteve a escrever precisamente sobre isso. Talvez um pouco sobre setembro, concedo, embora não veja muito bem que diferença faz.


20140825

Sonhos e esgotamentos

 
 

1

Aproximo-me de um lago com a intenção de lhe atirar uma pedra.
Existem imensos seixos nas margens desse lago cujo tom azul-escuro sugere águas frias e profundas.
Agarro num deles. Nesse sonho demorei uma imensidão de tempo a escolhê-lo não sei porquê.
Estive um tempo inusitado a sopesá-lo na mão, rolando-o entre o olhar e os dedos.

2
Quando o atirei, primeiro ouviu-se o tradicional pouuf da queda na água.
O que mais estranhei foi não ter causado a mínima ondulação, seguido do desaparecimento de qualquer impacto. Pura e simplesmente os sons desapareceram.
Esse desaparecimento, que não tinha nada a ver com a surdez, resgatou-me de um cansaço imenso.
Durante os breves instantes que durou esse momento ,percebi perfeitamente as pessoas cujo alimento é o silêncio.

3
Gostava de ir andando até me deixar tapar por um lago de silêncio, pensei.

4
Os sons normalmente maçam-me.
Abro uma exceção para um som que me transporta para as tonalidades da esperança. Refiro-me à flauta dos amola-tesouras. É um som que já ouvia desde a infância. Tornou-se raro e permanece antigo. Dizem que adivinha a chuva, o que o torna familiar e suportável. Não seria por sua causa que o meu lago de silêncio secava.

 

 

 

 

20140817

Nunca me lembro de Agosto ter conseguido chegar ao fim


Nunca me lembro de Agosto ter chegado ao fim. Setembro sempre entrou por esse mês dentro com o seu cortejo de desaparecimentos , saudades antes de tempo e consequentes nostalgias.
Todos os antigos amores de verão partiam antes da altura.

O verão e as conchas vazias nos bolsos ou algas secas a marcarem páginas de livros lidos durante o estio sempre foram sugados Setembro dentro, como marés vivas.

20140815

Agosto







Conheço sítios onde só se consegue chegar a pé, outros de carro ou de barco. Outros ainda pela memória e pelos sonhos, que são os que me interessam mais.
Prefiro este meio de transporte alimentado a amores e amizades antigas e sal. Há uma sabedoria da pele a este respeito que não troco por nenhum mapa.



20140701

A casa



Nos meus sonhos, entre os seis e os doze ou treze anos, era recorrente aparecer sempre a mesma casa, uma casa onde nunca encontrei qualquer pessoa e que ainda tinha alguma mobília, muito antiga e com cortinas invulgarmente grenás e pesadas.
 O mobiliário era quase todo constituído por móveis de parede. O soalho parecia-me enorme, assim como os tectos, invulgarmente altos. Não me recordo de ter visto qualquer janela.
Nela entrava por umas escadas de madeira intermináveis que me davam acesso a um número imprevisível de divisões, já que a casa, no seu interior, se alterava, criando ela própria novas escadas, pátios interiores, divisões inesperadas. O meu sonho iniciava-se sempre já a meio da subida dessas escadas.
A casa, embora reduzida a menos de um terço do mobiliário e sem qualquer habitante, não apresentava qualquer sinal de pó ou de degradação nos materiais. Nunca lá encontrei algum livro ou apesar das suas dimensões, qualquer escritório ou biblioteca.
Este sonho repetiu-se incontáveis vezes a tal ponto que, ainda hoje, se encontrasse esse sítio, o reconheceria sem dificuldade.

Nas próximas fotografias, é como se regressasse simbolicamente a esse lugar passados quarenta e dois anos, e o meu maior prazer vai ser descobrir não uma mas várias janelas… e elas darão para o mar, porque é assim que eu quero e me apetece.

20140621

Aproximações erráticas à ruinologia



A ruinologia não aprecia o decrépito, embora procure a natural ação do tempo sobre as construções e a glória humana. O Tempo, esse “Grande escultor”, como dizia Yourcenar, é o seu único aliado.

 Não se congratula com a ruína no sentido em que o fazia Constantin-François Volney em 1787, no decorrer de uma viagem ao Egipto e à Síria, em que as ruínas, politicamente, confirmavam a queda do poder e por isso o extasiavam. Tão pouco recomenda materiais prevendo o aspeto que venham a ter , como J. Ruskin, em 1849.

 Parece ficar mais a dever a Delille que, em 1782, se insurgiu a favor da “inimitável marca do tempo” que tanto o fascinava. A ruinologia não deixa no entanto de ser uma espécie de geografia interior e, sob esse aspeto, um cenário.

O ruinólogo não toca nem altera o que quer que seja. Regressa, esperando o tempo que for necessário. Nesse cálculo está um conhecimento que aproxima o ruinólogo do amante de livros antigos, embora não conheça nenhum livro que inicie, na arte, o ruinólogo amador.

Só percebe de ruinologia quem sonha. Nesse sentido ela pode ser romântica, na aceção que foi atribuído à palavra para caraterizar parte do século XIX.
A ruinologia só é uma ciência se a for no sentido em que afirmava um monge cisterciense, segundo o qual o Amor é uma forma de conhecimento. A poesia é-o e, nesse sentido, a ruinologia não o é menos.


(para a Joana Paiva e o João Carlos Vilhena, embora por motivos diferentes)

20140607

O mar


Fixo-me num ponto. Esse ponto pode estar numa parede, ou no mar. Se for numa parede é como se entrasse num labirinto de Proust, mas acho que é no mar. Convém-me o mar. Um dos livros que mais me marcou chama-se precisamente “O Mar”. Existem outros que, não obedecendo a essa designação, deixaram dentro de mim esse espaço. O marinheiro de Gibraltar e os cavalos de Tarquínia encontram-se nesse caso.

A realidade é que nunca me afasto do mar. Desconhecia que género de maldição esse afastamento podia implicar. Imaginei poder suprir essa ausência com leituras. Coitada da Sophia, nunca poderia ter imaginado que um pobre tipo  qualquer ia levar livros seus e lê-los em absoluto silêncio em pleno Alentejo convencido, mais por presunção poética do que por experiências feitas, que o resultado ia ser igual.

Se eu disser deserto tenho obrigação de saber que é uma coisa que não cabe nem nos meus passeios habituais nem no meu quintal. Se disser mar tem que ser uma coisa que me deixe o peito cheio de liberdade. Esqueci-me que nisso não transigia, não era capaz.

20140425

Esse sedimento de palavras cheias de coisas dentro.




Regresso  e agarro-me ao que me lembro como se isso me salvasse. E eu preciso cada vez mais de sons dentro da minha cabeça, sons de coisas que aí cresçam. Pode ser o nome de um livro, ou um excerto extraído talvez das suas páginas, não sei bem. Não tem a ver com o amor, não é um nome, não é o nome de ninguém.
Pode ser de um chá antigo, ou de uma rua, de um hotel que já desapareceu.
Se me esforçasse conseguiria saber o grau de humidade quase exata dos sítios onde dormi ao longo da minha vida. Dormir é uma atividade séria, adormecer em sítios desconhecidos requer que se confie, ou se esteja imensamente exausto, ou apaixonado, o que em termos de resultados é difícil de distinguir. De qualquer forma é a memória dessa humidade que me permite distinguir uma casa abandonada em Sintra ou em Avignon do quarto de um hotel em Istambul. Só depois vem a luz
Acho que consigo recordar o exato momento em que apaguei a luz em todos os quartos ou sítios onde adormeci. Em contrapartida dava tudo por saber que livros estava a ler, em que páginas exatas os interrompi.

Mais os livros que transportava dentro de mim. Só sei os livros que transportava dentro de mim depois. A  razão é que nem sempre coincidem com os livros que estava ou não a ler. Com o tempo tenho tendência  a ligar menos aos enredos e mais ao que deixam . Esse sedimento de palavras cheias de coisas dentro.

20140304

Da raridade dos sons mergulhados em silêncio.



Venho para o Alentejo à procura da raridade dos sons mergulhados em silêncio.
Um homem passa e eu ouço-lhe os passos como se fosse a única coisa do mundo. Esta qualidade dos sons só a encontro aqui.
Se uma criança ri, ou a sua mãe ralha e uma motorizada passa, eu ouço as três coisas em simultâneo mas cada uma com uma limpidez quase absoluta.
 É essa mesma claridade que pretendo para as minhas fotografias.

20140209

Uma estrela por muito menos



Atraem-me as vertigens.
Descobri isso de uma forma estranha, a ouvir Erik Satie.
Sempre me intrigou o efeito que as suas Gymnopédies exerciam sobre mim.
Aquela calma tinha qualquer coisa da calma das falésias. Conheço-lhes os efeitos intrigantes, as seduções hipnóticas, os resultados.
Não gosto de vento mas aprecio uma boa tempestade. Na costa vicentina esta aparente contradição acontece com frequência.
A primeira vez que ouvi Erik Satie foi num sítio assim, dentro de um carro. Andei perto de oitenta quilómetros após um jantar para ouvir as Gymnopédies no meio de um tempo que, de acordo com as previsões, assegurava vendaval.
Acho que nunca cheguei a ir embora nem nunca me apeteceu sair dessa pintura de Turner com óleos a cheirar a maresia e a esteva. Erik Satie ouvido através de uma pintura de Turner com um cheiro de vagas marítimas e esteva.
Um amigo ,que faz o favor de me aturar os entusiasmos e os exageros, disse-me uma vez com um prazer imenso “fogo, já ouvi falar de tipos que ganharam uma estrela ( no Michelin) por muito menos.”


20140205

Uma espécie de museu do esquecimento II



7
E dos livros que nos desaparecem. Ou porque os emprestamos e os levam, ou não os encontramos há muito e tememos por eles.
Interessa-me verdadeiramente os livros que me desaparecem e deixam esse espaço físico dentro de mim.
 Há livros que não podem ser substituídos. O seu desaparecimento cava um sulco que já não sabemos bem se queremos ou conseguimos substituir. Preferimos os caminhos que abriram dentro de nós do que reabri-los. E se calhar é preferível assim. Ficamos ligados a eles para sempre.

8
Ligamo-nos aos livros pelas mais diversas razões. Podemos ter lido uma das suas páginas numa praia quase deserta e de difícil acesso, ou não ter lido quase nada e ter ficado a olhar para as letras e a repetir-lhes a sequência com a cabeça e os olhos fechados, encostados a um peito. Ou porque se ligam a uma partida que nos dói, ou a uma chegada, ou ao nada que sobrou.
O mais comum é ligarmo-nos aos livros pelo que têm dentro. Mas não é o mais exato e ainda menos o mais seguro, se formos dados à precisão. Dessa parte encarrega-se o esquecimento

20140123

Uma espécie de museu do esquecimento




1
Sempre me intrigaram os ecos. Continuaram a intrigar-me mesmo quando percebi ao que se deviam.
Os espelhos têm sobre mim um efeito parecido. Aprecio a forma como nos devolvem as imagens projetadas ao contrario, como se entrássemos num livro de Casares ou numa tela de Magritte.
Na minha opinião a síntese destes fenómenos  continua a ser os livros.

2
A pouco e pouco os meus livros esquecem-se de mim. A minha biblioteca torna-se numa espécie de museu do eco e do esquecimento.
Não me apetece reler mas meto frequentemente as mãos no interior dos livros. Deles retiro estranhos papéis dobrados , folhas secas e mesmo grãos de areia que terão marcado essas páginas antigamente  amadas e lidas. Também esses sinais deixaram de  me pertencer . Fugiram.

3
Ao contrario dos lugares de infância, que encolhem quando os visitamos , a biblioteca cresce sem que se  dê por isso. Sai da zona de controlo da memoria, escava túneis que só as palavras e as folhas ligam.
Trata-se dos livros como se cuida de bonsais. Folha a folha, com as mãos.
É assim que se lê. Com o olhar e os dedos. As palavras foram desde o principio escritas assim e assim devem ser lidas. Borges sabia imenso sobre isso.

4
O tempo . Por detrás do tempo os livros sobrevivem. Ganham defesas, tonalidades e texturas que permitem ao olhar habituado descobri-los. Escapam com estilo . Escondem-se com estilo. Criam trilhos para quem os procura. Ficam com as dobras e as marcas das mudanças de casas e de vidas. Sobrevivem-lhes.

5 
A verdade é que depois de se ler um livro, de se entrar para dentro de um livro, nunca mais se regressa. Volta-se, mas não se regressa verdadeiramente. Passa a existir uma espécie de paisagem interior que levamos para onde queremos. Não queria exagerar dizendo que a nossa casa são os livros que lemos, o que obviamente não é exato. Mas a nossa biblioteca invisível torna-se numa espécie de sala dentro de nós. Uma sala secreta onde podemos entrar sem que nos macem. Só nós sabemos onde fica a porta. 
 6
Há bastante tempo que não cuido da biblioteca. Tem um ar romântico de jardim esquecido que já teve dias melhores. O meu olhar, lento, percorre as lombadas e detém-se aqui e ali para sonhar. Noto nas encadernações antigas rugas e tons sépia que me passaram despercebidos. A biblioteca torna-se num passeio. Detenho-me numa lombada do seculo XVIII como qualquer jardineiro faria. Secreta e luxuriosamente ela transforma-se numa janela da sala da música sobre o jardim. Ninguém me pode ouvir. Os segredos guardam-se através de pequenos passos. E chove.

20140113

O silêncio fóssil dos mares.


Preciso de rios só com seixos, de marés tão vivas que mostrassem o silêncio fóssil do fundo dos mares.
E seria na mesma uma espécie de ouvido atento à escrita de Sophia, à sua alma feita das marés que todos temos dentro e transportamos para onde quer que vamos.
Os beduínos e os mergulhadores não são muito diferentes.