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20140701

A casa



Nos meus sonhos, entre os seis e os doze ou treze anos, era recorrente aparecer sempre a mesma casa, uma casa onde nunca encontrei qualquer pessoa e que ainda tinha alguma mobília, muito antiga e com cortinas invulgarmente grenás e pesadas.
 O mobiliário era quase todo constituído por móveis de parede. O soalho parecia-me enorme, assim como os tectos, invulgarmente altos. Não me recordo de ter visto qualquer janela.
Nela entrava por umas escadas de madeira intermináveis que me davam acesso a um número imprevisível de divisões, já que a casa, no seu interior, se alterava, criando ela própria novas escadas, pátios interiores, divisões inesperadas. O meu sonho iniciava-se sempre já a meio da subida dessas escadas.
A casa, embora reduzida a menos de um terço do mobiliário e sem qualquer habitante, não apresentava qualquer sinal de pó ou de degradação nos materiais. Nunca lá encontrei algum livro ou apesar das suas dimensões, qualquer escritório ou biblioteca.
Este sonho repetiu-se incontáveis vezes a tal ponto que, ainda hoje, se encontrasse esse sítio, o reconheceria sem dificuldade.

Nas próximas fotografias, é como se regressasse simbolicamente a esse lugar passados quarenta e dois anos, e o meu maior prazer vai ser descobrir não uma mas várias janelas… e elas darão para o mar, porque é assim que eu quero e me apetece.

20100612

A cor da cal




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A cal não tem cor. É luz fóssil aprisionada numa concha imaginária. Cresce com o tempo, como uma espécie de pele das casas, camada sobre camada.
 Tento captar a sua respiração antiga, o sal que lhe nasce por baixo como se aí existisse uma praia. Decoro-lhe as formas como quem memoriza uma palavra caída em desuso ou um mapa, a forma como se arredonda como um seixo na curva entre o corredor e a escada.

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20100602

Transporto-os como casas, os livros.



Conheço bem as casas. Vivi dentro delas uma vida inteira. Conheço as suas armadilhas de veludo e aconchego. Nasci dentro de uma. Volto lá às vezes.
Noutras estive só por uma noite, nalguns casos apenas uma tarde que me ficou para sempre. São essas que me interessam. As portas são uma espécie de metáfora desse interesse. Acontece-me o mesmo com os livros. Transporto-os como casas, assim que ultrapasso a primeira página e entro lá para dentro. Tenho onde ficar onde quer que esteja.

20100530

As casas


Gosto deste som de sombra, ouvido do lado de dentro. Como um búzio concebido para as longas tardes de calor ou os dias duríssimos de Inverno.
Não te sei explicar esse som. São precisas várias coisas. Uma porta de madeira, um corredor , ao fim desse corredor um pequeno pátio. As portas têm de ter vidros coloridos antigos, martelados, com tons quentes. Ouves o som e não te mexes. Fica preso na tarde como uma lagartixa ao sol, ou o sino de um mosteiro tibetano. A casa torna-se como que abandonada contigo lá dentro. Quando vais ver quem bateu à porta já não há ninguém. É assim. Com pequenas variações.