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20160604

Uma luz antiga



Essas estátuas sem cabeça, sem braços, esses troncos existindo só por si não exercem especial fascínio sobre uma quantidade considerável de indivíduos que visitam em geral os museus e, mais raramente, as ruínas. Pelo contrário, essa mutilação impede-os de ver. Creio não exagerar se disser que constituem a maioria.

Que nos faz então – incluo-me nesse número – permanecer fascinados face a um torso quebrado de um qualquer atleta clássico desconhecido, contemplar sem fadiga essas obras, em certa medida privadas de ser, de sentido?

Por uma curiosa simbiose, somos de certa forma semelhantes a essas estátuas abandonadas pelos deuses. É de facto o seu destino aquilo que melhor entendemos e sentimos.
De algum modo elas são à sua maneira uma espécie de espelhos. Para a maioria, contudo, elas não refletem imagem alguma. São apenas estátuas partidas.


(excerto de texto antigo, sem alterações) 

20150616

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Normalmente hesito entre Proust, os espaços abertos e coisa nenhuma. Regra geral prefiro coisa nenhuma.
Agora, com esta espécie de cansaço, escolher é-me mais difícil ainda.
Não me apetece nem palavras nem sons,  mesmo sob a forma de canto.
Música barroca instrumental, ou vagas, era o que me convinha. Tudo o resto me parece apenas barulho.
O maior estrago de todos é saber que isso me é impossível.
No fundo desconfio que possa haver uma estúpida ideia de imortalidade por debaixo da capa da minha preguiça.



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