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20150402

Manoel




... e este texto antigo, salvo erro já aqui posto por volta de junho ou julho de 2012...
 
 
Estava a pensar naquela vez em que me apeteceu fumar um charuto e fomos ao bar exterior do Hotel Porto Santo onde um pianista quase solitário tocava temas vagamente jazzísticos de viagem de cruzeiro e um casal se levantou e começou a dançar. Fiquei imenso tempo a olhá-los, fascinado. Quando me disseste como se soubesses de um tesouro que reparasse melhor e percebi quem eram, nunca mais os filmes, certos filmes, foram os mesmos. Casablanca foi um dos mais atingidos. Manoel de Oliveira dançava com a esposa como se o mundo se suspendesse. E eu, que tinha acabado de chegar à ilha não havia três horas, às onze e meia de uma noite cálida, tive o privilégio nunca mais repetido de o ver efetivamente por momentos suspender-se.


20140621

Aproximações erráticas à ruinologia



A ruinologia não aprecia o decrépito, embora procure a natural ação do tempo sobre as construções e a glória humana. O Tempo, esse “Grande escultor”, como dizia Yourcenar, é o seu único aliado.

 Não se congratula com a ruína no sentido em que o fazia Constantin-François Volney em 1787, no decorrer de uma viagem ao Egipto e à Síria, em que as ruínas, politicamente, confirmavam a queda do poder e por isso o extasiavam. Tão pouco recomenda materiais prevendo o aspeto que venham a ter , como J. Ruskin, em 1849.

 Parece ficar mais a dever a Delille que, em 1782, se insurgiu a favor da “inimitável marca do tempo” que tanto o fascinava. A ruinologia não deixa no entanto de ser uma espécie de geografia interior e, sob esse aspeto, um cenário.

O ruinólogo não toca nem altera o que quer que seja. Regressa, esperando o tempo que for necessário. Nesse cálculo está um conhecimento que aproxima o ruinólogo do amante de livros antigos, embora não conheça nenhum livro que inicie, na arte, o ruinólogo amador.

Só percebe de ruinologia quem sonha. Nesse sentido ela pode ser romântica, na aceção que foi atribuído à palavra para caraterizar parte do século XIX.
A ruinologia só é uma ciência se a for no sentido em que afirmava um monge cisterciense, segundo o qual o Amor é uma forma de conhecimento. A poesia é-o e, nesse sentido, a ruinologia não o é menos.


(para a Joana Paiva e o João Carlos Vilhena, embora por motivos diferentes)

20140607

O mar


Fixo-me num ponto. Esse ponto pode estar numa parede, ou no mar. Se for numa parede é como se entrasse num labirinto de Proust, mas acho que é no mar. Convém-me o mar. Um dos livros que mais me marcou chama-se precisamente “O Mar”. Existem outros que, não obedecendo a essa designação, deixaram dentro de mim esse espaço. O marinheiro de Gibraltar e os cavalos de Tarquínia encontram-se nesse caso.

A realidade é que nunca me afasto do mar. Desconhecia que género de maldição esse afastamento podia implicar. Imaginei poder suprir essa ausência com leituras. Coitada da Sophia, nunca poderia ter imaginado que um pobre tipo  qualquer ia levar livros seus e lê-los em absoluto silêncio em pleno Alentejo convencido, mais por presunção poética do que por experiências feitas, que o resultado ia ser igual.

Se eu disser deserto tenho obrigação de saber que é uma coisa que não cabe nem nos meus passeios habituais nem no meu quintal. Se disser mar tem que ser uma coisa que me deixe o peito cheio de liberdade. Esqueci-me que nisso não transigia, não era capaz.