20141028

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É com muito gosto que colaboro com dois textos nesta antologia organizada por Gisela Ramos Rosa.

20141023

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Nesse sítio ouviam-se pouquíssimas palavras.
As pessoas que arriscavam a vida descendo as falésias para apanhar pequenos animais batidos pelas vagas e com sabor a mar falavam pouco.
 J, cujo sonho era o silêncio, encontrou nesta atividade uma salvação temporária. Até encontrar S que tinha uma casa de verão na praia e um corpo de sereia sem a parte de peixe e uma biblioteca.
Possuía igualmente um numero imenso de discos de vinil embora não existisse qualquer gira discos ou aparelhagem mais atual. Foi este facto, por mais estranho que pareça, que o levou a ficar.
 Depois começou a escrever uma história cujos parágrafos se estenderam por todo esse inverno.
 Basicamente tinha a ver com o mar. Se a tivesse continuado a coisa desenvolver-se-ia no sentido de os livros irem perdendo letras e no seu lugar se encontrarem algas e alterações deixadas pelas marés. Ao abri-los ouvia-se apenas ao longe o som de duas pessoas a falarem, tapadas pelas maresias e o som suave e ritmado das vagas.



20141008

20140918

As palavras



E apetecia-te morrer. Claro que é uma palavra da qual não sabes nada. Invocar uma palavra em vão e com desconhecimento é um ato leviano.
Sei para onde estavas a olhar quando o disseste. Conheço o poder dessas falésias como conheço o poder de uma cadeira virada para a planície sob um alpendre, a sul.
Invocar palavras em vão é um ato insensato sobretudo porque nunca saberemos que raio de efeitos podem provocar esses textos em quem os lê.

Tinhas obrigação de saber que quem nos ama ouve essas palavras como se as lesse.  

20140829

Talvez um pouco sobre Setembro também


Na realidade preciso de coisas extremas e imensas.
Se quiser ser rigoroso, e uma vez que impus a mim mesmo referir apenas duas, devo então mencionar as gymnopédies e uma semente que consegui que crescesse, praticamente criada à mão num vaso que levei para onde ia, ao longo de umas loucas férias na costa vicentina. São coisas destas a que me refiro.
Das que mais me impressionaram até hoje foi o silêncio e a leitura. Se tivesse que escolher apenas uma escolhia o silêncio da leitura.
Escrever é uma matéria que não cabe aqui. Tal como o silêncio, assunto que me interessa muito.
Ai sim… dizes-me. Disseste que ias falar sobre faróis por causa daquela fotografia que me intriga.
Mas é precisamente sobre isso que estive a escrever, respondo, com a cara de quem confia que uma mão cheia de perceves uma cerveja e um beijo o podem salvar, para além da convicção de que esteve a escrever precisamente sobre isso. Talvez um pouco sobre setembro, concedo, embora não veja muito bem que diferença faz.


20140825

Sonhos e esgotamentos

 
 

1

Aproximo-me de um lago com a intenção de lhe atirar uma pedra.
Existem imensos seixos nas margens desse lago cujo tom azul-escuro sugere águas frias e profundas.
Agarro num deles. Nesse sonho demorei uma imensidão de tempo a escolhê-lo não sei porquê.
Estive um tempo inusitado a sopesá-lo na mão, rolando-o entre o olhar e os dedos.

2
Quando o atirei, primeiro ouviu-se o tradicional pouuf da queda na água.
O que mais estranhei foi não ter causado a mínima ondulação, seguido do desaparecimento de qualquer impacto. Pura e simplesmente os sons desapareceram.
Esse desaparecimento, que não tinha nada a ver com a surdez, resgatou-me de um cansaço imenso.
Durante os breves instantes que durou esse momento ,percebi perfeitamente as pessoas cujo alimento é o silêncio.

3
Gostava de ir andando até me deixar tapar por um lago de silêncio, pensei.

4
Os sons normalmente maçam-me.
Abro uma exceção para um som que me transporta para as tonalidades da esperança. Refiro-me à flauta dos amola-tesouras. É um som que já ouvia desde a infância. Tornou-se raro e permanece antigo. Dizem que adivinha a chuva, o que o torna familiar e suportável. Não seria por sua causa que o meu lago de silêncio secava.