20150206

Do tempo


Medeia algum tempo entre a descoberta fortuita de algumas estátuas encontradas por um camponês italiano em 1748, e os trabalhos que o Professor, arqueólogo e helenista Baldassare Conticello executou já no século passado pondo a descoberto a antiga cidade da Câmpania, de cerca de trinta mil habitantes, lugar de prazer e recreio para os romanos ricos.
Entre outras coisas, as escavações puseram a descoberto os bordéis do Imperador. Com efeito, para além da evidência dos seus frescos, a erupção do Vesúvio, em 79, surpreendeu alguns dos seus clientes em plena erecção.

Li, algures, que a queda de Pompeia se ficou a dever à ira divina que, assim, com o fogo e as cinzas, destruiu esse lugar de luxúria e devassidão. Esta hipótese, mesmo que piedosa, apresenta-se-me naturalmente inverosímil. Esta dedução devo-a quer à análise aos frescos de Pompeia, quer à concepção que dos deuses possuo, dos deuses romanos em particular.

Não é isso no entanto o que curiosamente me interessa. Antes, e talvez uma vez mais o tempo, o esquecimento, sobretudo essa espécie de ferida da memória e uma certa sensação de tristeza, uma triste calma provocada pela beleza, e por essa mesma ferida desencadeada.

Existe uma relação óbvia entre o tempo e o esquecimento, mas não nessa acepção vulgar que atribuímos a ambas as palavras. Suponho mesmo que é o esquecimento que produz o tempo, e não o seu contrário.
Os frescos de Pompeia deveriam assim a sua inesgotável perturbação e beleza a esse estranho fenómeno e ás condições em que ocorreu a destruição da cidade. O castigo divino, mesmo que se tivesse verificado, não teria influência alguma.



20150116

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As folhas caem
acumulam-se umas sobre as outras
a chuva bate na chuva
Kyôshi(1732-1793)

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À entrada do Templo Mii
o som do sino
fica preso no ar gelado
Issa (1762-1826)



20150115

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"Deixei-me ferir por essa imagem. A dor alastra na garganta como o nevoeiro subindo a serra numa manhã de outubro. Talvez fosse essa a sua função: ferir para deixar uma cicatriz na pele, para o futuro."

Ruy Ventura, Sete Capítulos Do Mundo, 2003

20150110

"A Luz de Creta"




“ «Fundamentalmente, sou uma matéria de luz». Fulgurante visão de si e do mundo grego, esta que George Seferis concentrou em palavras precisas, medidas, mas ressoantes de sentido. Como poderei eu prosseguir ainda, explorando um veio que seja desta mineração cega, em demanda dessa outra matéria incandescente, por redutos ínvios, tacteando, captando cada eco discreto desse infinito sentido, que o poeta cristalizou numa pepita? Tal há-de ser o trabalho lento, tenaz, apuradamente recomeçado, sobre esta matéria a esboroar-se em luz.”

José Augusto Seabra, A Luz de Creta, Edições Cosmos,2000