20140829

Talvez um pouco sobre Setembro também


Na realidade preciso de coisas extremas e imensas.
Se quiser ser rigoroso, e uma vez que impus a mim mesmo referir apenas duas, devo então mencionar as gymnopédies e uma semente que consegui que crescesse, praticamente criada à mão num vaso que levei para onde ia, ao longo de umas loucas férias na costa vicentina. São coisas destas a que me refiro.
Das que mais me impressionaram até hoje foi o silêncio e a leitura. Se tivesse que escolher apenas uma escolhia o silêncio da leitura.
Escrever é uma matéria que não cabe aqui. Tal como o silêncio, assunto que me interessa muito.
Ai sim… dizes-me. Disseste que ias falar sobre faróis por causa daquela fotografia que me intriga.
Mas é precisamente sobre isso que estive a escrever, respondo, com a cara de quem confia que uma mão cheia de perceves uma cerveja e um beijo o podem salvar, para além da convicção de que esteve a escrever precisamente sobre isso. Talvez um pouco sobre setembro, concedo, embora não veja muito bem que diferença faz.


20140825

Sonhos e esgotamentos

 
 

1

Aproximo-me de um lago com a intenção de lhe atirar uma pedra.
Existem imensos seixos nas margens desse lago cujo tom azul-escuro sugere águas frias e profundas.
Agarro num deles. Nesse sonho demorei uma imensidão de tempo a escolhê-lo não sei porquê.
Estive um tempo inusitado a sopesá-lo na mão, rolando-o entre o olhar e os dedos.

2
Quando o atirei, primeiro ouviu-se o tradicional pouuf da queda na água.
O que mais estranhei foi não ter causado a mínima ondulação, seguido do desaparecimento de qualquer impacto. Pura e simplesmente os sons desapareceram.
Esse desaparecimento, que não tinha nada a ver com a surdez, resgatou-me de um cansaço imenso.
Durante os breves instantes que durou esse momento ,percebi perfeitamente as pessoas cujo alimento é o silêncio.

3
Gostava de ir andando até me deixar tapar por um lago de silêncio, pensei.

4
Os sons normalmente maçam-me.
Abro uma exceção para um som que me transporta para as tonalidades da esperança. Refiro-me à flauta dos amola-tesouras. É um som que já ouvia desde a infância. Tornou-se raro e permanece antigo. Dizem que adivinha a chuva, o que o torna familiar e suportável. Não seria por sua causa que o meu lago de silêncio secava.

 

 

 

 

20140817

Nunca me lembro de Agosto ter conseguido chegar ao fim


Nunca me lembro de Agosto ter chegado ao fim. Setembro sempre entrou por esse mês dentro com o seu cortejo de desaparecimentos , saudades antes de tempo e consequentes nostalgias.
Todos os antigos amores de verão partiam antes da altura.

O verão e as conchas vazias nos bolsos ou algas secas a marcarem páginas de livros lidos durante o estio sempre foram sugados Setembro dentro, como marés vivas.

20140815

Agosto







Conheço sítios onde só se consegue chegar a pé, outros de carro ou de barco. Outros ainda pela memória e pelos sonhos, que são os que me interessam mais.
Prefiro este meio de transporte alimentado a amores e amizades antigas e sal. Há uma sabedoria da pele a este respeito que não troco por nenhum mapa.



20140701

A casa



Nos meus sonhos, entre os seis e os doze ou treze anos, era recorrente aparecer sempre a mesma casa, uma casa onde nunca encontrei qualquer pessoa e que ainda tinha alguma mobília, muito antiga e com cortinas invulgarmente grenás e pesadas.
 O mobiliário era quase todo constituído por móveis de parede. O soalho parecia-me enorme, assim como os tectos, invulgarmente altos. Não me recordo de ter visto qualquer janela.
Nela entrava por umas escadas de madeira intermináveis que me davam acesso a um número imprevisível de divisões, já que a casa, no seu interior, se alterava, criando ela própria novas escadas, pátios interiores, divisões inesperadas. O meu sonho iniciava-se sempre já a meio da subida dessas escadas.
A casa, embora reduzida a menos de um terço do mobiliário e sem qualquer habitante, não apresentava qualquer sinal de pó ou de degradação nos materiais. Nunca lá encontrei algum livro ou apesar das suas dimensões, qualquer escritório ou biblioteca.
Este sonho repetiu-se incontáveis vezes a tal ponto que, ainda hoje, se encontrasse esse sítio, o reconheceria sem dificuldade.

Nas próximas fotografias, é como se regressasse simbolicamente a esse lugar passados quarenta e dois anos, e o meu maior prazer vai ser descobrir não uma mas várias janelas… e elas darão para o mar, porque é assim que eu quero e me apetece.