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20130327

Quando a própria dor não dói




Regresso a uma espécie de estado de animal ferido. Olho as coisas com uma tristeza antiga e reparo que a dor não me espanta. Já quase nada me espanta e deve ser por isso que a própria dor não me dói.
Quando a própria dor não dói é muito provável que as próprias coisas comecem uma a uma a partir.  Como os amores de verão em pleno Fevereiro. Assim vão os meses e os calendários e os dias. Qualquer dia vejo partir os amores de Fevereiro em pleno Verão. Depois digo-te.




20130319

Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…




Olhas a falésia. Uma mesa. Uma mesa com uma toalha branca que esvoaça. E uma cadeira. Aproximas-te.
Sentas-te.
Sobre a mesa está uma pequena aparelhagem sonora com um único botão.
Fechas os olhos.
Quando os abres sabes que vais carregar nessa tecla. E desse gesto aparentemente simples sai um som que vai entrar para sempre na tua vida. É o som de um piano lento, como as ondas a bater nas rochas, mais provavelmente o ir e vir de uma vida.
Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Era Erik Satie, digo-te vinte anos depois. Sorris. Pelo teu sorriso de Gioconda traída sei que era Erik Satie, por mais que te refugies na ideia de que a imagem que escolhi não tem nada a ver com isso.


20110919

Apenas tenho procurado registar isso numa imagem

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A ideia da série fotográfica “narrativas abertas” nasceu de uma visão. Passo a explicar.
Há uns dois anos, no Alentejo, à noite, para aí umas nove e meia da noite, fui dar uma volta a pé por causa do calor. De repente, numa esquina, inesperadamente uma vez que não havia ninguém na rua, aparece-me um cachorro novinho a contorná-la a grande velocidade, derrapando antes de seguir em frente. Seguiu-se um grande silêncio e eis que exactamente do mesmo sítio onde tinha ficado especado de surpresa, me aparece uma menina dos seus sete anos a correr atrás do bicho mas sem o chamar. De repente a menina pára, ou trava, no caso trava só para me dizer boa noite com a voz mais angélica e cristalina que se possa imaginar e desaparece na esquina seguinte seguindo o animal.
Já me têm dito que a dita série é das coisas mais esotéricas que tenho feito. Só conto este episódio sem nenhuma vontade de o complicar porque foi exactamente assim que se passou.
Os intervalos entre os sons, os passos, a sua ausência, numa pontuação extraordinária nunca mais me saíram da cabeça. Apenas tenho procurado registar isso numa imagem.