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20141023

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Nesse sítio ouviam-se pouquíssimas palavras.
As pessoas que arriscavam a vida descendo as falésias para apanhar pequenos animais batidos pelas vagas e com sabor a mar falavam pouco.
 J, cujo sonho era o silêncio, encontrou nesta atividade uma salvação temporária. Até encontrar S que tinha uma casa de verão na praia e um corpo de sereia sem a parte de peixe e uma biblioteca.
Possuía igualmente um numero imenso de discos de vinil embora não existisse qualquer gira discos ou aparelhagem mais atual. Foi este facto, por mais estranho que pareça, que o levou a ficar.
 Depois começou a escrever uma história cujos parágrafos se estenderam por todo esse inverno.
 Basicamente tinha a ver com o mar. Se a tivesse continuado a coisa desenvolver-se-ia no sentido de os livros irem perdendo letras e no seu lugar se encontrarem algas e alterações deixadas pelas marés. Ao abri-los ouvia-se apenas ao longe o som de duas pessoas a falarem, tapadas pelas maresias e o som suave e ritmado das vagas.



20140209

Uma estrela por muito menos



Atraem-me as vertigens.
Descobri isso de uma forma estranha, a ouvir Erik Satie.
Sempre me intrigou o efeito que as suas Gymnopédies exerciam sobre mim.
Aquela calma tinha qualquer coisa da calma das falésias. Conheço-lhes os efeitos intrigantes, as seduções hipnóticas, os resultados.
Não gosto de vento mas aprecio uma boa tempestade. Na costa vicentina esta aparente contradição acontece com frequência.
A primeira vez que ouvi Erik Satie foi num sítio assim, dentro de um carro. Andei perto de oitenta quilómetros após um jantar para ouvir as Gymnopédies no meio de um tempo que, de acordo com as previsões, assegurava vendaval.
Acho que nunca cheguei a ir embora nem nunca me apeteceu sair dessa pintura de Turner com óleos a cheirar a maresia e a esteva. Erik Satie ouvido através de uma pintura de Turner com um cheiro de vagas marítimas e esteva.
Um amigo ,que faz o favor de me aturar os entusiasmos e os exageros, disse-me uma vez com um prazer imenso “fogo, já ouvi falar de tipos que ganharam uma estrela ( no Michelin) por muito menos.”


20110819

Errâncias

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Por uma natural inclinação de feitio próxima da melancolia ou da própria tendência das coisas para o desaparecimento, fixei-as desde que me lembro dentro de mim. É por isso que às vezes pareço pisar um mapa transparente, como quem segue um caminho feito de geografias secretas, errâncias invisíveis. Na realidade conheço na perfeição esses trilhos armadilhados de sardas e verões antigos. Guio-me pelos sulcos provocados pelo amor ou pela tristeza da sua partida. Curiosamente quer uns quer outros levam-me de volta ao mesmo sítio, talvez com maior exactidão os segundos. Acho que isso provavelmente se deve ao facto de os homens nunca deixarem de ser rapazes. Gosto de acreditar nisso. Apazigua-me.



20110718

Era Agosto e não havia mais ninguém na praia

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Uma vez, na costa vicentina, quando falar desse sítio era como estar a falar de estaleiros de reparação de barcos para quem não soubesse onde isso ficava, vi uma coisa vir com as marés, um pequeno ponto negro que se aproximava. Nessa altura tanto fazia que viesse ou que se afastasse …amávamo-nos. Depois viemos a verificar que era uma vaca virada de pernas ao alto e a boiar, que deu à costa sem pressa nem classe, uma das patas parecia um mastro, pelo que a confundimos com um barco e começámos a imaginar náufragos e a ficar arrepiados. Era Agosto e não havia mais ninguém na praia. E agora que morreste, Isabel, e sinto sempre uma tristeza infinda, sabes só o que queria? Que fosse Agosto e não houvesse mais ninguém na praia. Não me interessava se dessem ou não à costa uma ou cem vacas a boiar. Apenas queria que não houvesse mais ninguém na praia. Cinco minutos às três horas da tarde sem ninguém na praia. Depois podiam voltar. As vacas, os banhistas, os nadadores salvadores, o pó que fazem.

(para a Manuela Caldeira, que sabe ainda, talvez, como se chega até lá.)

20100817

Ruinologias


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O que me fascina nas ruínas é precisamente o facto de serem ruínas, e não o invocarem com maior ou menor legibilidade uma determinada época. Quando muito, à reconstituição arqueológica prefiro a reconstituição pelo sonho, essa doce neblina. O passado, “cientificamente” reposto, enfada-me por vezes tanto como o presente, ou mesmo o futuro.

J. Ruskin, em 1849, leva o seu entusiasmo estético pela ruína ao ponto de recordar aos arquitectos que pensem os materiais, o desenho e a estrutura em função do aspecto que o edifício deverá ter quando em ruínas. A precariedade de certas estruturas e materiais (tijolo e pedra calcária em vez de granito, diz) abrevia a espera. Por isso as recomenda. É já a ruínologia contra a qual, Delille, num poema de 1782, se insurgiu a favor da “inimitável marca do tempo”, que aliás tanto o fascina.

Prefiro naturalmente o gosto Romântico à pedagogia. Em 1787, no decorrer de uma viagem ao Egipto e à Síria, Constantin-François Volney congratula-se com a ruína do seu sentido político. As ruínas dos castelos e dos templos extasiam-no. Ela é a prova insofismável da queda do poder opressivo. A ruína acede, curiosa inversão de perspectiva, ao orgulho revolucionário. Desagradável quanto inocente raciocínio.

O restauro, como atitude, que à primeira vista se lhe parece opor, não me merece maior simpatia. O meu fascínio pela ruína é estético, não é histórico. Qualquer reconstituição é, a esse nível, uma perturbação inútil introduzida nesse lento labor do tempo que aliás recomeçará, com a paciência de um monge copista. Não se deve alterar, sob nenhum pretexto, o conteúdo dos manuscritos.
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