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20150913

O mais belo e acertado texto sobre a minha mãe




A minha avó.
Delicada, sensível, etérea. De olhar profundo, transparente. De alma quente, vulcânica, apaixonada. Passo apressado, escorregadio. Real no porte.
Encantadora. De uma elegância rebelde. Leve, livre, solta. Mãos pequenas. À procura.
Amor ansioso, sôfrego. Entrega total, exigente e insegura. Inquieta.
Um mar de sentimentos. Brancos, negros, vermelhos e azuis. O sussurro da tranquilidade no grito das minhas agitações‎. O calor do colo. A suavidade dos beijos. A presença constante, completa.
Um corpo pequeno. Veloz. Uma mente curiosa. Desassossegada. Os sentidos. Todos. Juntos. Indomáveis. A eterna alegria inocente. O azul pleno da calma. O perfume dos sentimentos. A força do ser. O desejo do nós. A dúvida. A certeza. A cumplicidade.
A minha avó é sangue. Do meu. Do nosso. Do que não segue o curso das promessas. A minha avó é família. É união. Na presença, na ausência, nas partilhas, nas frustrações. A minha avó é ‎um oceano. De riso, lágrimas e ternura. A minha avó é um refúgio. Azul. Puro. São. A minha avó é amor. Do que desafia, do que transforma, do que liberta.

Em Londres, neste Outono antecipado, ela é o que falta. Numa voz doce, num olhar desejoso e num aconchego apertado, voando entre pingos de luar, sonhos imateriais e lugares mágicos, num brilho inconfundível, ela é tudo o que falta aqui.

(Obrigado  pelo surripianço, feito daqui: http://ohnonotanotheremigrationblog.blogspot.pt/

20150116

҉҉-



As folhas caem
acumulam-se umas sobre as outras
a chuva bate na chuva
Kyôshi(1732-1793)

҉ϕ  
 
À entrada do Templo Mii
o som do sino
fica preso no ar gelado
Issa (1762-1826)



20150115

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"Deixei-me ferir por essa imagem. A dor alastra na garganta como o nevoeiro subindo a serra numa manhã de outubro. Talvez fosse essa a sua função: ferir para deixar uma cicatriz na pele, para o futuro."

Ruy Ventura, Sete Capítulos Do Mundo, 2003

20150110

"A Luz de Creta"




“ «Fundamentalmente, sou uma matéria de luz». Fulgurante visão de si e do mundo grego, esta que George Seferis concentrou em palavras precisas, medidas, mas ressoantes de sentido. Como poderei eu prosseguir ainda, explorando um veio que seja desta mineração cega, em demanda dessa outra matéria incandescente, por redutos ínvios, tacteando, captando cada eco discreto desse infinito sentido, que o poeta cristalizou numa pepita? Tal há-de ser o trabalho lento, tenaz, apuradamente recomeçado, sobre esta matéria a esboroar-se em luz.”

José Augusto Seabra, A Luz de Creta, Edições Cosmos,2000

20120303

Atlas




“ A trezentos ou quatrocentos metros da pirâmide, baixei-me, peguei num punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz discreta: Estou a transformar o Sahara. O facto era mínimo mas na sua banalidade as minhas palavras eram exactas e pensei que tinha sido precisa toda uma vida para as poder pronunciar. A recordação deste instante é uma das mais significativas da minha estada no Egipto.”

J.L.Borges, «Atlas»

20101123

Haiku II



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“No alto da torre: para a despedida,
Rio e planície no crepúsculo se perdem
Voltam as aves: pôr-do-sol,
O homem caminha, cada vez mais longe.”

Wang Wei (séc. VIII)