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20151020
20140918
As palavras
E apetecia-te morrer. Claro que é uma palavra da qual não sabes nada. Invocar
uma palavra em vão e com desconhecimento é um ato leviano.
Sei para onde estavas a olhar quando o disseste. Conheço o poder dessas
falésias como conheço o poder de uma cadeira virada para a planície sob um
alpendre, a sul.
Invocar palavras em vão é um ato insensato sobretudo porque nunca
saberemos que raio de efeitos podem provocar esses textos em quem os lê.
Tinhas obrigação de saber que quem nos ama ouve essas palavras como se
as lesse.
20140429
20140426
20140228
20140205
Uma espécie de museu do esquecimento II
7
E dos livros que nos desaparecem. Ou porque os emprestamos e os levam,
ou não os encontramos há muito e tememos por eles.
Interessa-me verdadeiramente os livros que me desaparecem e deixam
esse espaço físico dentro de mim.
Há livros que não podem ser
substituídos. O seu desaparecimento cava um sulco que já não sabemos bem se
queremos ou conseguimos substituir. Preferimos os caminhos que abriram dentro
de nós do que reabri-los. E se calhar é preferível assim. Ficamos ligados a
eles para sempre.
8
Ligamo-nos aos livros pelas mais diversas razões.
Podemos ter lido uma das suas páginas numa praia quase deserta e de difícil
acesso, ou não ter lido quase nada e ter ficado a olhar para as letras e a
repetir-lhes a sequência com a cabeça e os olhos fechados, encostados a um
peito. Ou porque se ligam a uma partida que nos dói, ou a uma chegada, ou ao
nada que sobrou.
O mais comum é ligarmo-nos aos livros pelo que têm
dentro. Mas não é o mais exato e ainda menos o mais seguro, se formos dados à
precisão. Dessa parte encarrega-se o esquecimento
20140123
Uma espécie de museu do esquecimento
1
Sempre me intrigaram os ecos. Continuaram a intrigar-me
mesmo quando percebi ao que se deviam.
Os espelhos têm sobre mim um efeito parecido.
Aprecio a forma como nos devolvem as imagens projetadas ao contrario, como se
entrássemos num livro de Casares ou numa tela de Magritte.
Na minha opinião a síntese destes fenómenos continua a ser os livros.
2
A pouco e pouco os meus livros esquecem-se de mim. A minha biblioteca
torna-se numa espécie de museu do eco e do esquecimento.
Não me apetece reler mas meto frequentemente as mãos no interior dos
livros. Deles retiro estranhos papéis dobrados , folhas secas e mesmo grãos de
areia que terão marcado essas páginas antigamente amadas e lidas. Também esses sinais deixaram
de me pertencer . Fugiram.
3
Ao contrario dos
lugares de infância, que encolhem quando os visitamos , a biblioteca cresce sem
que se dê por isso. Sai da zona de
controlo da memoria, escava túneis que só as palavras e as folhas ligam.
Trata-se dos livros como se cuida de bonsais. Folha a folha, com as
mãos.
É assim que se lê. Com o olhar e os dedos. As palavras foram desde o
principio escritas assim e assim devem ser lidas. Borges sabia imenso sobre
isso.
4
O tempo . Por detrás do tempo os livros sobrevivem. Ganham defesas, tonalidades
e texturas que permitem ao olhar habituado descobri-los. Escapam com estilo .
Escondem-se com estilo. Criam trilhos para quem os procura. Ficam com as dobras
e as marcas das mudanças de casas e de vidas. Sobrevivem-lhes.
5
A verdade é que depois de se ler um livro, de se entrar para dentro de um livro, nunca mais se regressa. Volta-se, mas não se regressa verdadeiramente. Passa a existir uma espécie de paisagem interior que levamos para onde queremos. Não queria exagerar dizendo que a nossa casa são os livros que lemos, o que obviamente não é exato. Mas a nossa biblioteca invisível torna-se numa espécie de sala dentro de nós. Uma sala secreta onde podemos entrar sem que nos macem. Só nós sabemos onde fica a porta.
A verdade é que depois de se ler um livro, de se entrar para dentro de um livro, nunca mais se regressa. Volta-se, mas não se regressa verdadeiramente. Passa a existir uma espécie de paisagem interior que levamos para onde queremos. Não queria exagerar dizendo que a nossa casa são os livros que lemos, o que obviamente não é exato. Mas a nossa biblioteca invisível torna-se numa espécie de sala dentro de nós. Uma sala secreta onde podemos entrar sem que nos macem. Só nós sabemos onde fica a porta.
Há bastante tempo que não cuido
da biblioteca. Tem um ar romântico de jardim esquecido que já teve dias
melhores. O meu olhar, lento, percorre as lombadas e detém-se aqui e ali para
sonhar. Noto nas encadernações antigas rugas e tons sépia que me passaram
despercebidos. A biblioteca torna-se num passeio. Detenho-me numa lombada do
seculo XVIII como qualquer jardineiro faria. Secreta e luxuriosamente ela
transforma-se numa janela da sala da música sobre o jardim. Ninguém me pode
ouvir. Os segredos guardam-se através de pequenos passos. E chove.
20140101
20131224
20131223
20131222
20131211
Repetições
Ah, mas tem aqui umas lindas flores que lhe deixou
a esposa, disse a rapariga.
C suspira como se esse gesto apagasse a luz. As
palavras chegam ao fim, quer dizer, deixam de se ouvir. Na realidade elas
continuam dentro de si com os seus pequenos ecos que o impedem de dormir.
Um fio de palavras, ou um veio de pequenos sons
cada vez mais longínquos, não mais do que isso.
(para o meu pai)
Ah, mas ele adorou as flores que lhe deixou, disse a rapariga.
A. sorri como se por esse gesto acendesse uma luz. Está cansada das
palavras, da repetição que implicam. Por isso as escreve como quem tece fios
idênticos aos que ajudaram os heróis antigos a sair dos labirintos. Um fio de
palavras.
Ninguém vai mudar a água às flores, pensa. Ninguém muda a água a
labirintos. E aflige-se .
(para a minha mãe)
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