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20141102

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Claro que quando repetes que se não tiveres o cd, sei lá qual é do raio dos standards do Keith Jarrett sem o qual dizes que não consegues conduzir até lá, e é um funeral, ou uma inauguração, ou um almoço de família, eu sei que é verdade mas não me interessa. Deixei de argumentar. Já nem me apetece irritar-te com a história do homem, o pianista, guinchar, disse M com a voz um pouco mais rouca do que o habitual.
J. não disse nada. Já há muito tempo que não encontrava esse disco. Acho que tinha mesmo desistido de o procurar.  Deixara de qualquer modo de ir onde quer que fosse muito antes de o homem ter composto a obra. Estupidamente esta ideia fê-lo envaidecer-se subitamente, como se houvesse qualquer razão para tal.





20140621

Aproximações erráticas à ruinologia



A ruinologia não aprecia o decrépito, embora procure a natural ação do tempo sobre as construções e a glória humana. O Tempo, esse “Grande escultor”, como dizia Yourcenar, é o seu único aliado.

 Não se congratula com a ruína no sentido em que o fazia Constantin-François Volney em 1787, no decorrer de uma viagem ao Egipto e à Síria, em que as ruínas, politicamente, confirmavam a queda do poder e por isso o extasiavam. Tão pouco recomenda materiais prevendo o aspeto que venham a ter , como J. Ruskin, em 1849.

 Parece ficar mais a dever a Delille que, em 1782, se insurgiu a favor da “inimitável marca do tempo” que tanto o fascinava. A ruinologia não deixa no entanto de ser uma espécie de geografia interior e, sob esse aspeto, um cenário.

O ruinólogo não toca nem altera o que quer que seja. Regressa, esperando o tempo que for necessário. Nesse cálculo está um conhecimento que aproxima o ruinólogo do amante de livros antigos, embora não conheça nenhum livro que inicie, na arte, o ruinólogo amador.

Só percebe de ruinologia quem sonha. Nesse sentido ela pode ser romântica, na aceção que foi atribuído à palavra para caraterizar parte do século XIX.
A ruinologia só é uma ciência se a for no sentido em que afirmava um monge cisterciense, segundo o qual o Amor é uma forma de conhecimento. A poesia é-o e, nesse sentido, a ruinologia não o é menos.


(para a Joana Paiva e o João Carlos Vilhena, embora por motivos diferentes)

20140209

Uma estrela por muito menos



Atraem-me as vertigens.
Descobri isso de uma forma estranha, a ouvir Erik Satie.
Sempre me intrigou o efeito que as suas Gymnopédies exerciam sobre mim.
Aquela calma tinha qualquer coisa da calma das falésias. Conheço-lhes os efeitos intrigantes, as seduções hipnóticas, os resultados.
Não gosto de vento mas aprecio uma boa tempestade. Na costa vicentina esta aparente contradição acontece com frequência.
A primeira vez que ouvi Erik Satie foi num sítio assim, dentro de um carro. Andei perto de oitenta quilómetros após um jantar para ouvir as Gymnopédies no meio de um tempo que, de acordo com as previsões, assegurava vendaval.
Acho que nunca cheguei a ir embora nem nunca me apeteceu sair dessa pintura de Turner com óleos a cheirar a maresia e a esteva. Erik Satie ouvido através de uma pintura de Turner com um cheiro de vagas marítimas e esteva.
Um amigo ,que faz o favor de me aturar os entusiasmos e os exageros, disse-me uma vez com um prazer imenso “fogo, já ouvi falar de tipos que ganharam uma estrela ( no Michelin) por muito menos.”