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20130418

O ouvidor de búzios ou de livros, talvez as duas coisas misturadas.



“Agarras num búzio e encosta-lo ao ouvido, ou cheiras um livro acabado de comprar, não necessariamente por esta ordem. Quando estiveres preparado para perceber que esse cheiro te pode levar sem dares por isso a um verão ou a uma praia ou esse som a um livro, conto-te o resto”, disseste-me. 
  A vida afastou-nos. Já era muito antes dessa altura uma espécie de ouvidor de livros, ou de búzios, talvez as duas coisas misturadas. Omiti-te essa faceta minha durante um tempo demasiado. Quando partiste nunca imaginei que grande parte do meu tempo seria passado a tentar descobrir o que seria o resto. Que ainda o faço.

20130319

Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…




Olhas a falésia. Uma mesa. Uma mesa com uma toalha branca que esvoaça. E uma cadeira. Aproximas-te.
Sentas-te.
Sobre a mesa está uma pequena aparelhagem sonora com um único botão.
Fechas os olhos.
Quando os abres sabes que vais carregar nessa tecla. E desse gesto aparentemente simples sai um som que vai entrar para sempre na tua vida. É o som de um piano lento, como as ondas a bater nas rochas, mais provavelmente o ir e vir de uma vida.
Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Era Erik Satie, digo-te vinte anos depois. Sorris. Pelo teu sorriso de Gioconda traída sei que era Erik Satie, por mais que te refugies na ideia de que a imagem que escolhi não tem nada a ver com isso.


20120405

um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos



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Ah, mas tem aqui umas lindas flores que lhe deixou a esposa, disse a rapariga.
C suspira como se esse gesto apagasse a luz. As palavras chegam ao fim, quer dizer, deixam de se ouvir. Na realidade elas continuam dentro de si com os seus pequenos ecos que o impedem de dormir.
Um fio de palavras, ou um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos, não mais do que isso.
(para o meu pai)

20120403

Melancolia





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Quem nasce numa cidade portuária nunca chega verdadeiramente a sair dela. Transporta-a dentro de si como um nómada o deserto ou um náufrago o ultimo cigarro.
A sirene de um barco contém em si toda a melancolia do mundo, porque os grandes navios não chegam, apenas partem.
Aconteceu-me numa cidade estrangeira  ouvir esse som carregado de bruma no meio do intenso movimento dos carros e do ininterrupto ruído de fundo. Assim que me foi possível procurei o porto como quem procura droga, ou um bálsamo.
Esse bálsamo é triste e calmo. Uma mistura de melancolia e simultânea vontade de partir e de ficar.