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20170402
20130418
O ouvidor de búzios ou de livros, talvez as duas coisas misturadas.
“Agarras num búzio e encosta-lo ao ouvido, ou cheiras um
livro acabado de comprar, não necessariamente por esta ordem. Quando estiveres
preparado para perceber que esse cheiro te pode levar sem dares por isso a um
verão ou a uma praia ou esse som a um livro, conto-te o resto”, disseste-me.
A vida afastou-nos. Já era muito antes dessa
altura uma espécie de ouvidor de livros, ou de búzios, talvez as duas coisas
misturadas. Omiti-te essa faceta minha durante um tempo demasiado. Quando
partiste nunca imaginei que grande parte do meu tempo seria passado a tentar descobrir
o que seria o resto. Que ainda o faço.
20130319
Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Olhas
a falésia. Uma mesa. Uma mesa com uma toalha branca que esvoaça. E uma cadeira.
Aproximas-te.
Sentas-te.
Sobre
a mesa está uma pequena aparelhagem sonora com um único botão.
Fechas
os olhos.
Quando
os abres sabes que vais carregar nessa tecla. E desse gesto aparentemente
simples sai um som que vai entrar para sempre na tua vida. É o som de um piano lento,
como as ondas a bater nas rochas, mais provavelmente o ir e vir de uma vida.
Quando
acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Era
Erik Satie, digo-te vinte anos depois. Sorris. Pelo teu sorriso de Gioconda
traída sei que era Erik Satie, por mais que te refugies na ideia de que a
imagem que escolhi não tem nada a ver com isso.
20121026
20121021
20121019
20120513
20120510
20120506
20120502
20120501
20120430
20120428
20120422
20120413
20120408
20120405
um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos
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Ah, mas tem
aqui umas lindas flores que lhe deixou a esposa, disse a rapariga.
C suspira
como se esse gesto apagasse a luz. As palavras chegam ao fim, quer dizer,
deixam de se ouvir. Na realidade elas continuam dentro de si com os seus
pequenos ecos que o impedem de dormir.
Um fio de
palavras, ou um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos, não mais do que
isso.
(para o meu
pai)
20120403
Melancolia
_________________
Quem nasce
numa cidade portuária nunca chega verdadeiramente a sair dela. Transporta-a
dentro de si como um nómada o deserto ou um náufrago o ultimo cigarro.
A sirene de
um barco contém em si toda a melancolia do mundo, porque os grandes navios não
chegam, apenas partem.
Aconteceu-me
numa cidade estrangeira ouvir esse som carregado de bruma no meio do intenso
movimento dos carros e do ininterrupto ruído de fundo. Assim que me foi
possível procurei o porto como quem procura droga, ou um bálsamo.
Esse bálsamo
é triste e calmo. Uma mistura de melancolia e simultânea vontade de partir e de
ficar.
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