20150913

O mais belo e acertado texto sobre a minha mãe




A minha avó.
Delicada, sensível, etérea. De olhar profundo, transparente. De alma quente, vulcânica, apaixonada. Passo apressado, escorregadio. Real no porte.
Encantadora. De uma elegância rebelde. Leve, livre, solta. Mãos pequenas. À procura.
Amor ansioso, sôfrego. Entrega total, exigente e insegura. Inquieta.
Um mar de sentimentos. Brancos, negros, vermelhos e azuis. O sussurro da tranquilidade no grito das minhas agitações‎. O calor do colo. A suavidade dos beijos. A presença constante, completa.
Um corpo pequeno. Veloz. Uma mente curiosa. Desassossegada. Os sentidos. Todos. Juntos. Indomáveis. A eterna alegria inocente. O azul pleno da calma. O perfume dos sentimentos. A força do ser. O desejo do nós. A dúvida. A certeza. A cumplicidade.
A minha avó é sangue. Do meu. Do nosso. Do que não segue o curso das promessas. A minha avó é família. É união. Na presença, na ausência, nas partilhas, nas frustrações. A minha avó é ‎um oceano. De riso, lágrimas e ternura. A minha avó é um refúgio. Azul. Puro. São. A minha avó é amor. Do que desafia, do que transforma, do que liberta.

Em Londres, neste Outono antecipado, ela é o que falta. Numa voz doce, num olhar desejoso e num aconchego apertado, voando entre pingos de luar, sonhos imateriais e lugares mágicos, num brilho inconfundível, ela é tudo o que falta aqui.

(Obrigado  pelo surripianço, feito daqui: http://ohnonotanotheremigrationblog.blogspot.pt/

20150829

Regresso


É quase Setembro. Regresso pela mão de uma das infantas de Velasquez saída do quadro e que, como eu, vagueava sem grande rumo numa imensa tarde espanhola. Chego em boa companhia, disso tenho a certeza.

20150629

Desentraçar



Tenho o maior gosto se quiserem passar pelo ainda principiante sítio para "desentraçar" sobretudo desenhos (é só clicar, embora pareça ,eu sei,tão longe...)

20150617

Música para aeroportos



Eu não tenho ouvido para a música. Limito-me a fechar os olhos e ouvi-la. Não me recordo de uma única referência numa pauta ou frase musical referindo este órgão para semelhante coisa.
Saber fechar os olhos não estando a dormir é uma arte, isso posso assegurar, disse-te.
Há uma outra coisa fantástica que é nunca se falar daquilo que não se sabe.
Nessa altura tive a necessidade de te explicar porque passava tanto tempo a ouvir Brian Eno e a olhar para o mar, calado.

Recordo-me de nos termos rido porque era música “For Airports”. O que nos fez rir foi esta conversa ter ocorrido nas falésias da costa vicentina e eu ter dito “precisamente”, com um ar absoluto de quem sabe do que fala.
Ainda devo ter acrescentado, mas um pouco mais tarde, o Verão chega sempre de repente e parte rápido, como um punhal, ou uma traição. Sei do que falo. Fiz as contas.

“Aproxima-se a época em que os corpos, até chegar Setembro, começam a entrar dentro das histórias que vivem ou, por causa das marés, criam dentro de si. Mas isso é indiferente, porque o resultado final é idêntico.” Tenho quase a certeza de que foi mais ou menos isto que me respondeste. Ponho entre aspas porque nunca costumavas falar assim.

Há noites em que não conseguimos dormir na nossa cama. A razão, tirando um ou outro pormenor técnico que tem a ver com molas e colchões, é simples. A nossa cama é o único móvel fixo em casa. Estou cada vez mais convencida de que se dormíssemos de outra forma não constituía problema de maior partir.
Isso disseste-me, e tenho a certeza porque fecho os olhos e sei que nunca mais nos voltámos a ver. Volto a ouvir a «música para aeroportos» e tenho a certeza. Fecho os olhos. Não consigo adormecer e a única coisa que me vem com clareza à cabeça é a ideia de a cama ser sempre a mesma.



20150616

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Normalmente hesito entre Proust, os espaços abertos e coisa nenhuma. Regra geral prefiro coisa nenhuma.
Agora, com esta espécie de cansaço, escolher é-me mais difícil ainda.
Não me apetece nem palavras nem sons,  mesmo sob a forma de canto.
Música barroca instrumental, ou vagas, era o que me convinha. Tudo o resto me parece apenas barulho.
O maior estrago de todos é saber que isso me é impossível.
No fundo desconfio que possa haver uma estúpida ideia de imortalidade por debaixo da capa da minha preguiça.



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