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Manoel
... e este texto antigo, salvo erro já aqui posto por volta de junho ou julho de 2012...
Estava a pensar naquela vez em que me apeteceu fumar um charuto e fomos ao bar exterior do Hotel Porto Santo onde um pianista quase solitário tocava temas vagamente jazzísticos de viagem de cruzeiro e um casal se levantou e começou a dançar. Fiquei imenso tempo a olhá-los, fascinado. Quando me disseste como se soubesses de um tesouro que reparasse melhor e percebi quem eram, nunca mais os filmes, certos filmes, foram os mesmos. Casablanca foi um dos mais atingidos. Manoel de Oliveira dançava com a esposa como se o mundo se suspendesse. E eu, que tinha acabado de chegar à ilha não havia três horas, às onze e meia de uma noite cálida, tive o privilégio nunca mais repetido de o ver efetivamente por momentos suspender-se.
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Do tempo
Medeia algum tempo entre a descoberta fortuita de algumas estátuas encontradas
por um camponês italiano em 1748, e os trabalhos que o Professor, arqueólogo e
helenista Baldassare Conticello executou já no século passado pondo a
descoberto a antiga cidade da Câmpania, de cerca de trinta mil habitantes,
lugar de prazer e recreio para os romanos ricos.
Entre outras coisas, as escavações puseram a descoberto os bordéis do
Imperador. Com efeito, para além da evidência dos seus frescos, a erupção do
Vesúvio, em 79, surpreendeu alguns dos seus clientes em plena erecção.
Li, algures, que a queda de Pompeia se ficou a dever à ira divina que,
assim, com o fogo e as cinzas, destruiu esse lugar de luxúria e devassidão.
Esta hipótese, mesmo que piedosa, apresenta-se-me naturalmente inverosímil.
Esta dedução devo-a quer à análise aos frescos de Pompeia, quer à concepção que
dos deuses possuo, dos deuses romanos em particular.
Não é isso no entanto o que curiosamente me interessa. Antes, e talvez
uma vez mais o tempo, o esquecimento, sobretudo essa espécie de ferida da
memória e uma certa sensação de tristeza, uma triste calma provocada pela
beleza, e por essa mesma ferida desencadeada.
Existe uma relação óbvia entre o tempo e o esquecimento, mas não nessa
acepção vulgar que atribuímos a ambas as palavras. Suponho mesmo que é o
esquecimento que produz o tempo, e não o seu contrário.
Os frescos de Pompeia deveriam assim a sua inesgotável perturbação e
beleza a esse estranho fenómeno e ás condições em que ocorreu a destruição da
cidade. O castigo divino, mesmo que se tivesse verificado, não teria influência
alguma.
20150204
20150131
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