20150110

"A Luz de Creta"




“ «Fundamentalmente, sou uma matéria de luz». Fulgurante visão de si e do mundo grego, esta que George Seferis concentrou em palavras precisas, medidas, mas ressoantes de sentido. Como poderei eu prosseguir ainda, explorando um veio que seja desta mineração cega, em demanda dessa outra matéria incandescente, por redutos ínvios, tacteando, captando cada eco discreto desse infinito sentido, que o poeta cristalizou numa pepita? Tal há-de ser o trabalho lento, tenaz, apuradamente recomeçado, sobre esta matéria a esboroar-se em luz.”

José Augusto Seabra, A Luz de Creta, Edições Cosmos,2000

20141102

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Claro que quando repetes que se não tiveres o cd, sei lá qual é do raio dos standards do Keith Jarrett sem o qual dizes que não consegues conduzir até lá, e é um funeral, ou uma inauguração, ou um almoço de família, eu sei que é verdade mas não me interessa. Deixei de argumentar. Já nem me apetece irritar-te com a história do homem, o pianista, guinchar, disse M com a voz um pouco mais rouca do que o habitual.
J. não disse nada. Já há muito tempo que não encontrava esse disco. Acho que tinha mesmo desistido de o procurar.  Deixara de qualquer modo de ir onde quer que fosse muito antes de o homem ter composto a obra. Estupidamente esta ideia fê-lo envaidecer-se subitamente, como se houvesse qualquer razão para tal.





20141028

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É com muito gosto que colaboro com dois textos nesta antologia organizada por Gisela Ramos Rosa.

20141023

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Nesse sítio ouviam-se pouquíssimas palavras.
As pessoas que arriscavam a vida descendo as falésias para apanhar pequenos animais batidos pelas vagas e com sabor a mar falavam pouco.
 J, cujo sonho era o silêncio, encontrou nesta atividade uma salvação temporária. Até encontrar S que tinha uma casa de verão na praia e um corpo de sereia sem a parte de peixe e uma biblioteca.
Possuía igualmente um numero imenso de discos de vinil embora não existisse qualquer gira discos ou aparelhagem mais atual. Foi este facto, por mais estranho que pareça, que o levou a ficar.
 Depois começou a escrever uma história cujos parágrafos se estenderam por todo esse inverno.
 Basicamente tinha a ver com o mar. Se a tivesse continuado a coisa desenvolver-se-ia no sentido de os livros irem perdendo letras e no seu lugar se encontrarem algas e alterações deixadas pelas marés. Ao abri-los ouvia-se apenas ao longe o som de duas pessoas a falarem, tapadas pelas maresias e o som suave e ritmado das vagas.



20140918

As palavras



E apetecia-te morrer. Claro que é uma palavra da qual não sabes nada. Invocar uma palavra em vão e com desconhecimento é um ato leviano.
Sei para onde estavas a olhar quando o disseste. Conheço o poder dessas falésias como conheço o poder de uma cadeira virada para a planície sob um alpendre, a sul.
Invocar palavras em vão é um ato insensato sobretudo porque nunca saberemos que raio de efeitos podem provocar esses textos em quem os lê.

Tinhas obrigação de saber que quem nos ama ouve essas palavras como se as lesse.