20141203
20141116
20141114
20141102
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Claro que quando repetes que se não tiveres o cd, sei
lá qual é do raio dos standards do Keith Jarrett sem o qual dizes que não
consegues conduzir até lá, e é um funeral, ou uma inauguração, ou um almoço de
família, eu sei que é verdade mas não me interessa. Deixei de argumentar. Já
nem me apetece irritar-te com a história do homem, o pianista, guinchar, disse
M com a voz um pouco mais rouca do que o habitual.
J. não disse nada. Já há muito tempo que não
encontrava esse disco. Acho que tinha mesmo desistido de o procurar. Deixara de qualquer modo de ir onde quer que
fosse muito antes de o homem ter composto a obra. Estupidamente esta ideia
fê-lo envaidecer-se subitamente, como se houvesse qualquer razão para tal.
20141030
20141028
20141023
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Nesse sítio ouviam-se pouquíssimas palavras.
As pessoas que arriscavam a vida descendo as
falésias para apanhar pequenos animais batidos pelas vagas e com sabor a mar
falavam pouco.
J, cujo
sonho era o silêncio, encontrou nesta atividade uma salvação temporária. Até
encontrar S que tinha uma casa de verão na praia e um corpo de sereia sem a
parte de peixe e uma biblioteca.
Possuía igualmente um numero imenso de discos de
vinil embora não existisse qualquer gira discos ou aparelhagem mais atual. Foi
este facto, por mais estranho que pareça, que o levou a ficar.
Depois
começou a escrever uma história cujos parágrafos se estenderam por todo esse
inverno.
Basicamente
tinha a ver com o mar. Se a tivesse continuado a coisa desenvolver-se-ia no
sentido de os livros irem perdendo letras e no seu lugar se encontrarem algas e
alterações deixadas pelas marés. Ao abri-los ouvia-se apenas ao longe o som de
duas pessoas a falarem, tapadas pelas maresias e o som suave e ritmado das
vagas.
20141021
20141008
20141003
20141001
20140922
20140918
As palavras
E apetecia-te morrer. Claro que é uma palavra da qual não sabes nada. Invocar
uma palavra em vão e com desconhecimento é um ato leviano.
Sei para onde estavas a olhar quando o disseste. Conheço o poder dessas
falésias como conheço o poder de uma cadeira virada para a planície sob um
alpendre, a sul.
Invocar palavras em vão é um ato insensato sobretudo porque nunca
saberemos que raio de efeitos podem provocar esses textos em quem os lê.
Tinhas obrigação de saber que quem nos ama ouve essas palavras como se
as lesse.
20140914
20140911
20140907
20140830
20140829
Talvez um pouco sobre Setembro também
Na realidade
preciso de coisas extremas e imensas.
Se quiser ser rigoroso, e uma vez que impus a mim mesmo referir apenas
duas, devo então mencionar as gymnopédies e uma
semente que consegui que crescesse, praticamente criada à mão num vaso que
levei para onde ia, ao longo de umas loucas férias na costa vicentina. São
coisas destas a que me refiro.
Das que mais me impressionaram até hoje foi o silêncio e a leitura. Se
tivesse que escolher apenas uma escolhia o silêncio da leitura.
Escrever é uma matéria que não cabe aqui. Tal como o silêncio, assunto
que me interessa muito.
Ai sim… dizes-me. Disseste que ias falar sobre faróis por causa daquela
fotografia que me intriga.
Mas é precisamente sobre isso que estive a escrever, respondo, com a cara
de quem confia que uma mão cheia de perceves uma cerveja e um beijo o podem
salvar, para além da convicção de que esteve a escrever precisamente sobre
isso. Talvez um pouco sobre setembro, concedo, embora não veja muito bem que
diferença faz.
20140825
Sonhos e esgotamentos
1
Aproximo-me de
um lago com a intenção de lhe atirar uma pedra.
Existem imensos seixos nas margens desse lago
cujo tom azul-escuro sugere águas frias e profundas.Agarro num deles. Nesse sonho demorei uma imensidão de tempo a escolhê-lo não sei porquê.
Estive um tempo inusitado a sopesá-lo na mão, rolando-o entre o olhar e os dedos.
2
Quando o
atirei, primeiro ouviu-se o tradicional pouuf da queda na água. O que mais estranhei foi não ter causado a mínima ondulação, seguido do desaparecimento de qualquer impacto. Pura e simplesmente os sons desapareceram.
Esse desaparecimento, que não tinha nada a ver com a surdez, resgatou-me de um cansaço imenso.
Durante os breves instantes que durou esse momento ,percebi perfeitamente as pessoas cujo alimento é o silêncio.
3
Gostava de ir andando
até me deixar tapar por um lago de silêncio, pensei.
4
Os sons
normalmente maçam-me.
Abro uma
exceção para um som que me transporta para as tonalidades da esperança.
Refiro-me à flauta dos amola-tesouras. É um som que já ouvia desde a infância. Tornou-se
raro e permanece antigo. Dizem que adivinha a chuva, o que o torna familiar e
suportável. Não seria por sua causa que o meu lago de silêncio secava.
20140817
Nunca me lembro de Agosto ter conseguido chegar ao fim
Nunca me
lembro de Agosto ter chegado ao fim. Setembro sempre entrou por esse mês dentro
com o seu cortejo de desaparecimentos , saudades antes de tempo e consequentes
nostalgias.
Todos os
antigos amores de verão partiam antes da altura.
O verão e as
conchas vazias nos bolsos ou algas secas a marcarem páginas de livros lidos
durante o estio sempre foram sugados Setembro dentro, como marés vivas.
20140815
Agosto
Conheço
sítios onde só se consegue chegar a pé, outros de carro ou de barco. Outros
ainda pela memória e pelos sonhos, que são os que me interessam mais.
Prefiro este
meio de transporte alimentado a amores e amizades antigas e sal. Há uma
sabedoria da pele a este respeito que não troco por nenhum mapa.
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