20140709
20140707
20140705
20140703
20140701
A casa
Nos meus
sonhos, entre os seis e os doze ou treze anos, era recorrente aparecer sempre a
mesma casa, uma casa onde nunca encontrei qualquer pessoa e que ainda tinha
alguma mobília, muito antiga e com cortinas invulgarmente grenás e pesadas.
O mobiliário era quase todo constituído por
móveis de parede. O soalho parecia-me enorme, assim como os tectos,
invulgarmente altos. Não me recordo de ter visto qualquer janela.
Nela entrava
por umas escadas de madeira intermináveis que me davam acesso a um número
imprevisível de divisões, já que a casa, no seu interior, se alterava, criando
ela própria novas escadas, pátios interiores, divisões inesperadas. O meu sonho
iniciava-se sempre já a meio da subida dessas escadas.
A casa, embora
reduzida a menos de um terço do mobiliário e sem qualquer habitante, não
apresentava qualquer sinal de pó ou de degradação nos materiais. Nunca lá
encontrei algum livro ou apesar das suas dimensões, qualquer escritório ou
biblioteca.
Este sonho repetiu-se incontáveis vezes a tal ponto que, ainda hoje, se
encontrasse esse sítio, o reconheceria sem dificuldade.
Nas próximas fotografias, é como
se regressasse simbolicamente a esse lugar passados quarenta e dois anos, e o
meu maior prazer vai ser descobrir não uma mas várias janelas… e elas darão
para o mar, porque é assim que eu quero e me apetece.
20140630
20140626
20140623
Postagem aberta a um anónimo
(pode clicar para ampliar)
Caro/a anónimo
Não sei quem mais criou a expressão ruinologia e tenho mais
onde ocupar o meu tempo do que em provas de paternidade.
De tempos a tempos, com uma insistência e propósito
indelicados, tinha sido confrontado com comentários anónimos sempre em torno
desta questão.
O último, que é provavelmente do mesmo (é tão fácil criar um
perfil blogger só para maçar), confrontava-me, ufano, com a exposição que a
artista plástica Rosângela Rennó apresentou na 29ª Bienal de Arte de São Paulo.
Aí, no texto de apresentação, apareceria
com todas as luzinhas a acender e a apagar a palavra usurpada.
Dei-me ao trabalho de ver a data da bienal: setembro-
dezembro de 2010… este blogue foi criado em 2008, depois “apagado”, refeito de
humores e cá caminha desde 2010…
Mas para que seja, espero, a última vez que abordo o
assunto, coloco uma página do suplemento literário do jornal “O Setubalense”,
dirigida pelo poeta João Raposo Nunes, onde colaborava com textos intitulados
Ruinologias, datados de 1989…….
Chega?
Obrigado.
Ps- prometa ao menos que não me mina a paciência com tudo o
que aparecer depois de 1989…
20140621
Aproximações erráticas à ruinologia
A ruinologia não aprecia o decrépito, embora procure a
natural ação do tempo sobre as construções e a glória humana. O Tempo, esse
“Grande escultor”, como dizia Yourcenar, é o seu único aliado.
Não se congratula com
a ruína no sentido em que o fazia Constantin-François Volney em 1787, no
decorrer de uma viagem ao Egipto e à Síria, em que as ruínas, politicamente,
confirmavam a queda do poder e por isso o extasiavam. Tão pouco recomenda
materiais prevendo o aspeto que venham a ter , como J. Ruskin, em 1849.
Parece ficar mais a
dever a Delille que, em 1782, se insurgiu a favor da “inimitável marca do
tempo” que tanto o fascinava. A ruinologia não deixa no entanto de ser uma
espécie de geografia interior e, sob esse aspeto, um cenário.
O ruinólogo não toca nem altera o que quer que seja.
Regressa, esperando o tempo que for necessário. Nesse cálculo está um
conhecimento que aproxima o ruinólogo do amante de livros antigos, embora não
conheça nenhum livro que inicie, na arte, o ruinólogo amador.
Só percebe de ruinologia quem sonha. Nesse sentido ela pode
ser romântica, na aceção que foi atribuído à palavra para caraterizar parte do
século XIX.
A ruinologia só é uma ciência se a for no sentido em que
afirmava um monge cisterciense, segundo o qual o Amor é uma forma de
conhecimento. A poesia é-o e, nesse sentido, a ruinologia não o é menos.
20140619
20140617
20140615
20140613
20140612
20140610
20140609
20140607
O mar
Fixo-me num ponto. Esse ponto
pode estar numa parede, ou no mar. Se for numa parede é como se entrasse num
labirinto de Proust, mas acho que é no mar. Convém-me o mar. Um dos livros que
mais me marcou chama-se precisamente “O Mar”. Existem outros que, não
obedecendo a essa designação, deixaram dentro de mim esse espaço. O marinheiro
de Gibraltar e os cavalos de Tarquínia encontram-se nesse caso.
A realidade é que nunca me afasto
do mar. Desconhecia que género de maldição esse afastamento podia implicar.
Imaginei poder suprir essa ausência com leituras. Coitada da Sophia, nunca
poderia ter imaginado que um pobre tipo qualquer ia levar livros
seus e lê-los em absoluto silêncio em pleno Alentejo convencido, mais por
presunção poética do que por experiências feitas, que o resultado ia ser igual.
Se eu disser deserto tenho
obrigação de saber que é uma coisa que não cabe nem nos meus passeios habituais
nem no meu quintal. Se disser mar tem que ser uma coisa que me deixe o peito
cheio de liberdade. Esqueci-me que nisso não transigia, não era capaz.
20140606
20140602
20140529
20140526
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