20140609
20140607
O mar
Fixo-me num ponto. Esse ponto
pode estar numa parede, ou no mar. Se for numa parede é como se entrasse num
labirinto de Proust, mas acho que é no mar. Convém-me o mar. Um dos livros que
mais me marcou chama-se precisamente “O Mar”. Existem outros que, não
obedecendo a essa designação, deixaram dentro de mim esse espaço. O marinheiro
de Gibraltar e os cavalos de Tarquínia encontram-se nesse caso.
A realidade é que nunca me afasto
do mar. Desconhecia que género de maldição esse afastamento podia implicar.
Imaginei poder suprir essa ausência com leituras. Coitada da Sophia, nunca
poderia ter imaginado que um pobre tipo qualquer ia levar livros
seus e lê-los em absoluto silêncio em pleno Alentejo convencido, mais por
presunção poética do que por experiências feitas, que o resultado ia ser igual.
Se eu disser deserto tenho
obrigação de saber que é uma coisa que não cabe nem nos meus passeios habituais
nem no meu quintal. Se disser mar tem que ser uma coisa que me deixe o peito
cheio de liberdade. Esqueci-me que nisso não transigia, não era capaz.
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Esse sedimento de palavras cheias de coisas dentro.
Regresso e agarro-me
ao que me lembro como se isso me salvasse. E eu preciso cada vez mais de sons
dentro da minha cabeça, sons de coisas que aí cresçam. Pode ser o nome de um
livro, ou um excerto extraído talvez das suas páginas, não sei bem. Não tem a
ver com o amor, não é um nome, não é o nome de ninguém.
Pode ser de um chá antigo, ou de
uma rua, de um hotel que já desapareceu.
Se me esforçasse conseguiria
saber o grau de humidade quase exata dos sítios onde dormi ao longo da minha
vida. Dormir é uma atividade séria, adormecer em sítios desconhecidos requer
que se confie, ou se esteja imensamente exausto, ou apaixonado, o que em termos
de resultados é difícil de distinguir. De qualquer forma é a memória dessa
humidade que me permite distinguir uma casa abandonada em Sintra ou em Avignon
do quarto de um hotel em Istambul. Só depois vem a luz
Acho que consigo recordar o exato
momento em que apaguei a luz em todos os quartos ou sítios onde adormeci. Em
contrapartida dava tudo por saber que livros estava a ler, em que páginas
exatas os interrompi.
Mais os livros que transportava
dentro de mim. Só sei os livros que transportava dentro de mim depois. A razão
é que nem sempre coincidem com os livros que estava ou não a ler. Com o tempo
tenho tendência a ligar menos aos enredos e mais ao que deixam .
Esse sedimento de palavras cheias de coisas dentro.
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