20140304

Da raridade dos sons mergulhados em silêncio.



Venho para o Alentejo à procura da raridade dos sons mergulhados em silêncio.
Um homem passa e eu ouço-lhe os passos como se fosse a única coisa do mundo. Esta qualidade dos sons só a encontro aqui.
Se uma criança ri, ou a sua mãe ralha e uma motorizada passa, eu ouço as três coisas em simultâneo mas cada uma com uma limpidez quase absoluta.
 É essa mesma claridade que pretendo para as minhas fotografias.

20140301

Pausa para reflexão

                                                                                           
                                                                                                           Vilhelm Hammershøi    

20140209

Uma estrela por muito menos



Atraem-me as vertigens.
Descobri isso de uma forma estranha, a ouvir Erik Satie.
Sempre me intrigou o efeito que as suas Gymnopédies exerciam sobre mim.
Aquela calma tinha qualquer coisa da calma das falésias. Conheço-lhes os efeitos intrigantes, as seduções hipnóticas, os resultados.
Não gosto de vento mas aprecio uma boa tempestade. Na costa vicentina esta aparente contradição acontece com frequência.
A primeira vez que ouvi Erik Satie foi num sítio assim, dentro de um carro. Andei perto de oitenta quilómetros após um jantar para ouvir as Gymnopédies no meio de um tempo que, de acordo com as previsões, assegurava vendaval.
Acho que nunca cheguei a ir embora nem nunca me apeteceu sair dessa pintura de Turner com óleos a cheirar a maresia e a esteva. Erik Satie ouvido através de uma pintura de Turner com um cheiro de vagas marítimas e esteva.
Um amigo ,que faz o favor de me aturar os entusiasmos e os exageros, disse-me uma vez com um prazer imenso “fogo, já ouvi falar de tipos que ganharam uma estrela ( no Michelin) por muito menos.”


20140205

Uma espécie de museu do esquecimento II



7
E dos livros que nos desaparecem. Ou porque os emprestamos e os levam, ou não os encontramos há muito e tememos por eles.
Interessa-me verdadeiramente os livros que me desaparecem e deixam esse espaço físico dentro de mim.
 Há livros que não podem ser substituídos. O seu desaparecimento cava um sulco que já não sabemos bem se queremos ou conseguimos substituir. Preferimos os caminhos que abriram dentro de nós do que reabri-los. E se calhar é preferível assim. Ficamos ligados a eles para sempre.

8
Ligamo-nos aos livros pelas mais diversas razões. Podemos ter lido uma das suas páginas numa praia quase deserta e de difícil acesso, ou não ter lido quase nada e ter ficado a olhar para as letras e a repetir-lhes a sequência com a cabeça e os olhos fechados, encostados a um peito. Ou porque se ligam a uma partida que nos dói, ou a uma chegada, ou ao nada que sobrou.
O mais comum é ligarmo-nos aos livros pelo que têm dentro. Mas não é o mais exato e ainda menos o mais seguro, se formos dados à precisão. Dessa parte encarrega-se o esquecimento