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Da raridade dos sons mergulhados em silêncio.
Venho para o Alentejo à procura da raridade dos
sons mergulhados em silêncio.
Um homem passa e eu ouço-lhe os passos como se
fosse a única coisa do mundo. Esta qualidade dos sons só a encontro aqui.
Se uma criança ri, ou a sua mãe ralha e uma
motorizada passa, eu ouço as três coisas em simultâneo mas cada uma com uma
limpidez quase absoluta.
É essa mesma claridade que pretendo para as minhas
fotografias.
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20140209
Uma estrela por muito menos
Atraem-me as vertigens.
Descobri isso de uma forma estranha, a ouvir Erik Satie.
Sempre me intrigou o efeito que as suas Gymnopédies exerciam sobre mim.
Aquela calma tinha qualquer coisa da calma das falésias. Conheço-lhes
os efeitos intrigantes, as seduções hipnóticas, os resultados.
Não gosto de vento mas aprecio uma boa tempestade. Na costa vicentina
esta aparente contradição acontece com frequência.
A primeira vez que ouvi Erik Satie foi num sítio assim, dentro de um
carro. Andei perto de oitenta quilómetros após um jantar para ouvir as
Gymnopédies no meio de um tempo que, de acordo com as previsões, assegurava vendaval.
Acho que nunca cheguei a ir embora nem nunca me apeteceu sair dessa
pintura de Turner com óleos a cheirar a maresia e a esteva. Erik Satie ouvido
através de uma pintura de Turner com um cheiro de vagas marítimas e esteva.
Um amigo ,que faz o favor de me aturar os entusiasmos e os exageros,
disse-me uma vez com um prazer imenso “fogo, já ouvi falar de tipos que
ganharam uma estrela ( no Michelin) por muito menos.”
20140205
Uma espécie de museu do esquecimento II
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E dos livros que nos desaparecem. Ou porque os emprestamos e os levam,
ou não os encontramos há muito e tememos por eles.
Interessa-me verdadeiramente os livros que me desaparecem e deixam
esse espaço físico dentro de mim.
Há livros que não podem ser
substituídos. O seu desaparecimento cava um sulco que já não sabemos bem se
queremos ou conseguimos substituir. Preferimos os caminhos que abriram dentro
de nós do que reabri-los. E se calhar é preferível assim. Ficamos ligados a
eles para sempre.
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Ligamo-nos aos livros pelas mais diversas razões.
Podemos ter lido uma das suas páginas numa praia quase deserta e de difícil
acesso, ou não ter lido quase nada e ter ficado a olhar para as letras e a
repetir-lhes a sequência com a cabeça e os olhos fechados, encostados a um
peito. Ou porque se ligam a uma partida que nos dói, ou a uma chegada, ou ao
nada que sobrou.
O mais comum é ligarmo-nos aos livros pelo que têm
dentro. Mas não é o mais exato e ainda menos o mais seguro, se formos dados à
precisão. Dessa parte encarrega-se o esquecimento
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