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20140211
20140209
Uma estrela por muito menos
Atraem-me as vertigens.
Descobri isso de uma forma estranha, a ouvir Erik Satie.
Sempre me intrigou o efeito que as suas Gymnopédies exerciam sobre mim.
Aquela calma tinha qualquer coisa da calma das falésias. Conheço-lhes
os efeitos intrigantes, as seduções hipnóticas, os resultados.
Não gosto de vento mas aprecio uma boa tempestade. Na costa vicentina
esta aparente contradição acontece com frequência.
A primeira vez que ouvi Erik Satie foi num sítio assim, dentro de um
carro. Andei perto de oitenta quilómetros após um jantar para ouvir as
Gymnopédies no meio de um tempo que, de acordo com as previsões, assegurava vendaval.
Acho que nunca cheguei a ir embora nem nunca me apeteceu sair dessa
pintura de Turner com óleos a cheirar a maresia e a esteva. Erik Satie ouvido
através de uma pintura de Turner com um cheiro de vagas marítimas e esteva.
Um amigo ,que faz o favor de me aturar os entusiasmos e os exageros,
disse-me uma vez com um prazer imenso “fogo, já ouvi falar de tipos que
ganharam uma estrela ( no Michelin) por muito menos.”
20140205
Uma espécie de museu do esquecimento II
7
E dos livros que nos desaparecem. Ou porque os emprestamos e os levam,
ou não os encontramos há muito e tememos por eles.
Interessa-me verdadeiramente os livros que me desaparecem e deixam
esse espaço físico dentro de mim.
Há livros que não podem ser
substituídos. O seu desaparecimento cava um sulco que já não sabemos bem se
queremos ou conseguimos substituir. Preferimos os caminhos que abriram dentro
de nós do que reabri-los. E se calhar é preferível assim. Ficamos ligados a
eles para sempre.
8
Ligamo-nos aos livros pelas mais diversas razões.
Podemos ter lido uma das suas páginas numa praia quase deserta e de difícil
acesso, ou não ter lido quase nada e ter ficado a olhar para as letras e a
repetir-lhes a sequência com a cabeça e os olhos fechados, encostados a um
peito. Ou porque se ligam a uma partida que nos dói, ou a uma chegada, ou ao
nada que sobrou.
O mais comum é ligarmo-nos aos livros pelo que têm
dentro. Mas não é o mais exato e ainda menos o mais seguro, se formos dados à
precisão. Dessa parte encarrega-se o esquecimento
20140123
Uma espécie de museu do esquecimento
1
Sempre me intrigaram os ecos. Continuaram a intrigar-me
mesmo quando percebi ao que se deviam.
Os espelhos têm sobre mim um efeito parecido.
Aprecio a forma como nos devolvem as imagens projetadas ao contrario, como se
entrássemos num livro de Casares ou numa tela de Magritte.
Na minha opinião a síntese destes fenómenos continua a ser os livros.
2
A pouco e pouco os meus livros esquecem-se de mim. A minha biblioteca
torna-se numa espécie de museu do eco e do esquecimento.
Não me apetece reler mas meto frequentemente as mãos no interior dos
livros. Deles retiro estranhos papéis dobrados , folhas secas e mesmo grãos de
areia que terão marcado essas páginas antigamente amadas e lidas. Também esses sinais deixaram
de me pertencer . Fugiram.
3
Ao contrario dos
lugares de infância, que encolhem quando os visitamos , a biblioteca cresce sem
que se dê por isso. Sai da zona de
controlo da memoria, escava túneis que só as palavras e as folhas ligam.
Trata-se dos livros como se cuida de bonsais. Folha a folha, com as
mãos.
É assim que se lê. Com o olhar e os dedos. As palavras foram desde o
principio escritas assim e assim devem ser lidas. Borges sabia imenso sobre
isso.
4
O tempo . Por detrás do tempo os livros sobrevivem. Ganham defesas, tonalidades
e texturas que permitem ao olhar habituado descobri-los. Escapam com estilo .
Escondem-se com estilo. Criam trilhos para quem os procura. Ficam com as dobras
e as marcas das mudanças de casas e de vidas. Sobrevivem-lhes.
5
A verdade é que depois de se ler um livro, de se entrar para dentro de um livro, nunca mais se regressa. Volta-se, mas não se regressa verdadeiramente. Passa a existir uma espécie de paisagem interior que levamos para onde queremos. Não queria exagerar dizendo que a nossa casa são os livros que lemos, o que obviamente não é exato. Mas a nossa biblioteca invisível torna-se numa espécie de sala dentro de nós. Uma sala secreta onde podemos entrar sem que nos macem. Só nós sabemos onde fica a porta.
A verdade é que depois de se ler um livro, de se entrar para dentro de um livro, nunca mais se regressa. Volta-se, mas não se regressa verdadeiramente. Passa a existir uma espécie de paisagem interior que levamos para onde queremos. Não queria exagerar dizendo que a nossa casa são os livros que lemos, o que obviamente não é exato. Mas a nossa biblioteca invisível torna-se numa espécie de sala dentro de nós. Uma sala secreta onde podemos entrar sem que nos macem. Só nós sabemos onde fica a porta.
Há bastante tempo que não cuido
da biblioteca. Tem um ar romântico de jardim esquecido que já teve dias
melhores. O meu olhar, lento, percorre as lombadas e detém-se aqui e ali para
sonhar. Noto nas encadernações antigas rugas e tons sépia que me passaram
despercebidos. A biblioteca torna-se num passeio. Detenho-me numa lombada do
seculo XVIII como qualquer jardineiro faria. Secreta e luxuriosamente ela
transforma-se numa janela da sala da música sobre o jardim. Ninguém me pode
ouvir. Os segredos guardam-se através de pequenos passos. E chove.
20140120
20140114
20140113
O silêncio fóssil dos mares.
Preciso de rios só com seixos, de marés tão vivas que mostrassem o silêncio fóssil do fundo dos mares.
E seria na mesma uma espécie de ouvido atento à escrita de Sophia, à sua alma feita das marés que todos temos dentro e transportamos para onde quer que vamos.
Os beduínos e os mergulhadores não são muito diferentes.
20140112
20140108
20140106
20140104
20140101
20131224
20131223
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