20130418

O ouvidor de búzios ou de livros, talvez as duas coisas misturadas.



“Agarras num búzio e encosta-lo ao ouvido, ou cheiras um livro acabado de comprar, não necessariamente por esta ordem. Quando estiveres preparado para perceber que esse cheiro te pode levar sem dares por isso a um verão ou a uma praia ou esse som a um livro, conto-te o resto”, disseste-me. 
  A vida afastou-nos. Já era muito antes dessa altura uma espécie de ouvidor de livros, ou de búzios, talvez as duas coisas misturadas. Omiti-te essa faceta minha durante um tempo demasiado. Quando partiste nunca imaginei que grande parte do meu tempo seria passado a tentar descobrir o que seria o resto. Que ainda o faço.

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20130417

Pode ser por isso. O mar.



Uma espécie de voz quando toca, digo-te. Um som que vem de dentro e não se dirige especialmente para nenhum lado.
Chet Baker, dizes-me. Rimos. Ouvimo-lo um pouco mais e ficamos tanto tempo apenas a ouvir.
Até alguém dizer de novo esse nome. É estranho, porque nos olhamos como se voltássemos ao fim de muito tempo de qualquer sítio.
Alguém dirá então põe outra música. Embora tudo nos pareça estranho saímos para comprar cigarros, que é a única coisa que aos olhos dos outros poderá ser compreensível.
Mas ouvia-se o mar, perguntas-me. Talvez, digo. Só me recordo de termos ficado um tempo infindo deitados de costas no chão a olhar para as nuvens. Pode ser por isso. O mar.

20130402

Por outro lado troco Proust por Pedro Paixão. Já vês.



Nunca mais volto a falar de como um dos meus sonhos era passar um fim de semana em Teerão.
Prefiro morrer a ver-te quase chorar de cansaço, exasperada com os tratamentos e com as minhas teorias.
Eu não gosto de viajar. O acto físico da viagem incomoda-me enquanto decorre. Só o consigo começar a viver algum tempo depois, quando assenta e se imobiliza como nos filmes mudos dentro de mim.
Um fim de semana em Teerão é o prazer antecipado dessa acção congelada pela sua própria natureza. Simultaneamente decorrendo e já antiga.
 Por outro lado troco Proust por Pedro Paixão. Já vês.




20130327

Quando a própria dor não dói




Regresso a uma espécie de estado de animal ferido. Olho as coisas com uma tristeza antiga e reparo que a dor não me espanta. Já quase nada me espanta e deve ser por isso que a própria dor não me dói.
Quando a própria dor não dói é muito provável que as próprias coisas comecem uma a uma a partir.  Como os amores de verão em pleno Fevereiro. Assim vão os meses e os calendários e os dias. Qualquer dia vejo partir os amores de Fevereiro em pleno Verão. Depois digo-te.