20130402

Por outro lado troco Proust por Pedro Paixão. Já vês.



Nunca mais volto a falar de como um dos meus sonhos era passar um fim de semana em Teerão.
Prefiro morrer a ver-te quase chorar de cansaço, exasperada com os tratamentos e com as minhas teorias.
Eu não gosto de viajar. O acto físico da viagem incomoda-me enquanto decorre. Só o consigo começar a viver algum tempo depois, quando assenta e se imobiliza como nos filmes mudos dentro de mim.
Um fim de semana em Teerão é o prazer antecipado dessa acção congelada pela sua própria natureza. Simultaneamente decorrendo e já antiga.
 Por outro lado troco Proust por Pedro Paixão. Já vês.




20130327

Quando a própria dor não dói




Regresso a uma espécie de estado de animal ferido. Olho as coisas com uma tristeza antiga e reparo que a dor não me espanta. Já quase nada me espanta e deve ser por isso que a própria dor não me dói.
Quando a própria dor não dói é muito provável que as próprias coisas comecem uma a uma a partir.  Como os amores de verão em pleno Fevereiro. Assim vão os meses e os calendários e os dias. Qualquer dia vejo partir os amores de Fevereiro em pleno Verão. Depois digo-te.




20130319

Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…




Olhas a falésia. Uma mesa. Uma mesa com uma toalha branca que esvoaça. E uma cadeira. Aproximas-te.
Sentas-te.
Sobre a mesa está uma pequena aparelhagem sonora com um único botão.
Fechas os olhos.
Quando os abres sabes que vais carregar nessa tecla. E desse gesto aparentemente simples sai um som que vai entrar para sempre na tua vida. É o som de um piano lento, como as ondas a bater nas rochas, mais provavelmente o ir e vir de uma vida.
Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Era Erik Satie, digo-te vinte anos depois. Sorris. Pelo teu sorriso de Gioconda traída sei que era Erik Satie, por mais que te refugies na ideia de que a imagem que escolhi não tem nada a ver com isso.