20130413
20130412
20130411
20130410
20130409
20130405
20130403
20130402
Por outro lado troco Proust por Pedro Paixão. Já vês.
Nunca mais
volto a falar de como um dos meus sonhos era passar um fim de semana em Teerão.
Prefiro morrer
a ver-te quase chorar de cansaço, exasperada com os tratamentos e com as minhas
teorias.
Eu não gosto
de viajar. O acto físico da viagem incomoda-me enquanto decorre. Só o consigo
começar a viver algum tempo depois, quando assenta e se imobiliza como nos
filmes mudos dentro de mim.
Um fim de
semana em Teerão é o prazer antecipado dessa acção congelada pela sua própria
natureza. Simultaneamente decorrendo e já antiga.
Por outro lado troco Proust por Pedro Paixão.
Já vês.
20130401
20130331
20130329
20130327
Quando a própria dor não dói
Regresso
a uma espécie de estado de animal ferido. Olho as coisas com uma tristeza antiga
e reparo que a dor não me espanta. Já quase nada me espanta e deve ser por isso
que a própria dor não me dói.
Quando
a própria dor não dói é muito provável que as próprias coisas comecem uma a uma
a partir. Como os amores de verão em
pleno Fevereiro. Assim vão os meses e os calendários e os dias. Qualquer dia
vejo partir os amores de Fevereiro em pleno Verão. Depois digo-te.
20130325
20130320
20130319
Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Olhas
a falésia. Uma mesa. Uma mesa com uma toalha branca que esvoaça. E uma cadeira.
Aproximas-te.
Sentas-te.
Sobre
a mesa está uma pequena aparelhagem sonora com um único botão.
Fechas
os olhos.
Quando
os abres sabes que vais carregar nessa tecla. E desse gesto aparentemente
simples sai um som que vai entrar para sempre na tua vida. É o som de um piano lento,
como as ondas a bater nas rochas, mais provavelmente o ir e vir de uma vida.
Quando
acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Era
Erik Satie, digo-te vinte anos depois. Sorris. Pelo teu sorriso de Gioconda
traída sei que era Erik Satie, por mais que te refugies na ideia de que a
imagem que escolhi não tem nada a ver com isso.
20130317
20130315
20130311
20130227
20130225
20130213
Ou, talvez, no caso de se tratar de um labirinto, nele alguém caminhe, em vez de mim.
pintura de Sophie Matisse (pormenor)
“(…) essas portas, vulgares, de aspecto talvez um pouco
antigo, não dão para parte alguma. São apenas portas, quer dizer, erguem-se
nessa superfície imensa sem estarem ligadas a qualquer espécie de estrutura.
Fechando os olhos - e
eis o segundo facto que me leva a supor tratar-se de um labirinto - a mesma
superfície se estende, branca e infindável(…).
Nele erro ao acaso, há bastante tempo, peregrino de um
estranho caminho. Ou, talvez, no caso de se tratar de um labirinto, nele alguém
caminhe, em vez de mim.”
De «Aparecimentos», ed. autor, 1989
20130211
Fico parado no eco dos meus passos
Fico
parado no eco dos meus passos.
Fixo-me
num som. Preciso de um som que não tenha sido produzido por mim.
Esta aparente liberdade que é a ausência, requere
uma materialidade que só um som exacto pode proporcionar. Face ao caos da
correria das infantas, o som pesado do cortinado a abrir-se e a voltar ao seu lugar, deixado
pela mão de José Nieto Velázquez, é a saída que preciso para não ficar
eternamente preso nesse local.
José Nieto, sei lá porquê, chama o cão que
numa correria atravessa toda a sala e sai.
E
eu fico parado.
Sem
querer parecer presunçoso, penso agora que passei grande parte da minha vida a
tentar sair desta pintura, deste local, ou a tentar voltar a ele sempre que me afasto.
E que perdi uma das minhas grandes oportunidades.
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