20130401
20130331
20130329
20130327
Quando a própria dor não dói
Regresso
a uma espécie de estado de animal ferido. Olho as coisas com uma tristeza antiga
e reparo que a dor não me espanta. Já quase nada me espanta e deve ser por isso
que a própria dor não me dói.
Quando
a própria dor não dói é muito provável que as próprias coisas comecem uma a uma
a partir. Como os amores de verão em
pleno Fevereiro. Assim vão os meses e os calendários e os dias. Qualquer dia
vejo partir os amores de Fevereiro em pleno Verão. Depois digo-te.
20130325
20130320
20130319
Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Olhas
a falésia. Uma mesa. Uma mesa com uma toalha branca que esvoaça. E uma cadeira.
Aproximas-te.
Sentas-te.
Sobre
a mesa está uma pequena aparelhagem sonora com um único botão.
Fechas
os olhos.
Quando
os abres sabes que vais carregar nessa tecla. E desse gesto aparentemente
simples sai um som que vai entrar para sempre na tua vida. É o som de um piano lento,
como as ondas a bater nas rochas, mais provavelmente o ir e vir de uma vida.
Quando
acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Era
Erik Satie, digo-te vinte anos depois. Sorris. Pelo teu sorriso de Gioconda
traída sei que era Erik Satie, por mais que te refugies na ideia de que a
imagem que escolhi não tem nada a ver com isso.
20130317
20130315
20130311
20130227
20130225
20130213
Ou, talvez, no caso de se tratar de um labirinto, nele alguém caminhe, em vez de mim.
pintura de Sophie Matisse (pormenor)
“(…) essas portas, vulgares, de aspecto talvez um pouco
antigo, não dão para parte alguma. São apenas portas, quer dizer, erguem-se
nessa superfície imensa sem estarem ligadas a qualquer espécie de estrutura.
Fechando os olhos - e
eis o segundo facto que me leva a supor tratar-se de um labirinto - a mesma
superfície se estende, branca e infindável(…).
Nele erro ao acaso, há bastante tempo, peregrino de um
estranho caminho. Ou, talvez, no caso de se tratar de um labirinto, nele alguém
caminhe, em vez de mim.”
De «Aparecimentos», ed. autor, 1989
20130211
Fico parado no eco dos meus passos
Fico
parado no eco dos meus passos.
Fixo-me
num som. Preciso de um som que não tenha sido produzido por mim.
Esta aparente liberdade que é a ausência, requere
uma materialidade que só um som exacto pode proporcionar. Face ao caos da
correria das infantas, o som pesado do cortinado a abrir-se e a voltar ao seu lugar, deixado
pela mão de José Nieto Velázquez, é a saída que preciso para não ficar
eternamente preso nesse local.
José Nieto, sei lá porquê, chama o cão que
numa correria atravessa toda a sala e sai.
E
eu fico parado.
Sem
querer parecer presunçoso, penso agora que passei grande parte da minha vida a
tentar sair desta pintura, deste local, ou a tentar voltar a ele sempre que me afasto.
E que perdi uma das minhas grandes oportunidades.
20130208
.
pintura de Sophie Matisse
Velasquez
fez-se representar a si próprio, segundo se crê, pintando os reis de Espanha e
as infantas e aias que o terão infernizado mais do que uma clássica sessão de pintura
tolera.
Sophie
Matisse fez o favor de os fazer desaparecer a todos de cena.
Imagino cada um entregue às tarefas que a
libertação da pose lhes permitiu.
Uma vez, noutro contexto, li uma observação de
Walter Benjamin referindo-se ao facto de, nas fotografias antigas, aqueles que
posavam entrarem dentro das imagens devido à rigidez da postura e ao tempo da
imobilidade da pose.
Aqui
é precisamente o oposto. Sophie não os liberta, porque o peso da história os recolocará no seu
lugar. O que Sophie faz é libertar-me a mim que passo a vida a olhar para esta pintura,
e deixar-me um som que consiste basicamente em ouvir o eco dos meus próprios
passos a cirandar pela galeria deserta.
Este
texto é dedicado a Daniel Rodriguez, filósofo argentino cujas observações em
relação a algumas das minhas fotografias me têm obrigado a pensar. Obrigado.
20130207
As biografias só são imaginárias porque as próprias vidas não o são menos
Desconheço tudo de Isabelle Eberhardt tanto mais que
penso conhecer um pouco da sua vida. O seu rosto, construído ao sabor de
leituras já que dele possuo poucas fotografias, conserva os traços essenciais
dessa voz que se foi moldando pela visão dos desertos e das dunas.
Uma questão coloca-se-me com alguma insistência.
Saber até que ponto este rosto não será mais autêntico do que o “verdadeiro”,
aprisionado num fim de tarde de Tunes sobre um papel hoje provavelmente já
amarelecido.
Suponhamos que possuo de Isabelle uma biografia
honesta e uma boa fotografia. Nada me garante que exista a mínima coincidência
entre as duas.
Se me interrogar como R. Barthes a propósito de Piet
Mondrian “Como é possível ter-se um ar inteligente sem se pensar em nada de
inteligente” e pensar como é possível ter um ar sereno quando essa vida é um
incêndio, corro seguramente o risco de supor ter encontrado a resposta na
própria voz de Isabelle sem ter que procurar muito : “A embriaguez terrível e
violenta dos sentidos, intensa, delirante, contrasta singularmente com a minha
existência de todos os dias, calma, reflexiva.”
Já não é o caso da mulher aparentemente vulgar que de
noite se veste de jovem cavaleiro turco que aqui me interessa. É já toda e
qualquer vida.
As biografias só são imaginárias, como quase defende
M. Schwob, porque as próprias vidas não o são menos, mesmo para quem as vive,
atrevo-me a dizer.
A minha vida só me parece mais real porque a vejo.
Obviamente, penso, os biógrafos verão apenas parte dela, quando não mesmo outra
coisa. Naturalmente não me apercebo que comigo sucede o mesmo.
(texto antigo, reeditado sem alterações)
20130203
Não é que não exista
Dia 5
Quando a dor
é muita. Ou a perda um abismo. Ou o susto quase a tirar a vida. Ou a vida a
assustar que se tira.
Aí, nós, os
outros do lado de lá dessa cortina, ficamos invisíveis.
É pouco
rigoroso materializar essa ideia de invisibilidade numa sombra. Mas como se
pode ser rigoroso quando nos dói tanto essa tripla dor que é a ferida amada e a
nossa invisibilidade somada à dúvida se o amor cura?
Dia 7
Ou um barulho imenso, quase bíblico. Um
rugido vindo de cima e é um prédio de exactamente doze andares que te cai em
cima. Olhas à tua volta e não entendes o caos. Tude desaba e não te mexes nem
um milímetro. O ruído abafado é estranhamente longínquo, tudo é estranhamente
longínquo menos tu no meio de tudo.
Quando olhas
para cima és atingida por um fragmento que não tem mais de 2 centímetros e meio
mas que te deixa numa perplexidade profunda. Tão profunda que não entendes como
tudo sossega de repente. Tão de repente que só sobras tu no meio desse caos
desaparecido.
20130202
Quando a dor é muita. Para a Madalena. A sombra de uma invisibilidade que é a minha.
Quando a dor
é muita. Ou a perda um abismo. Ou o susto quase a tirar a vida. Ou a vida a
assustar que se tira.
Aí, nós, os
outros do lado de lá dessa cortina, ficamos invisíveis.
É pouco
rigoroso materializar essa ideia de invisibilidade numa sombra. Mas como se
pode ser rigoroso quando nos dói tanto essa tripla dor que é a ferida amada e a
nossa invisibilidade somada à dúvida se o amor cura?
20130127
Bosques meus .XII
Gosto da forma como Ivone Costa trata as personagens, meio livres pela sua
condição, meio condenadas a uma errância que a imaginação da autora lhes
inflige. Na perspectiva de quem fotografa (ou escreve com luz, nome pomposo
para a mesma coisa) é fascinante essa outra errância que é escrever com as
impermanências de um porto de parede, ou de cais, ou de papel. A leitura é o
porto mais parecido com uma enseada. Um seio. Uns olhos que pestanejam mais
demoradamente do que o habitual após lerem.
Para encostar o olhar ao texto é fazê-lo aqui . Até que outros hóspedes
abram outras páginas.
20130122
20130119
20130116
Alexandria. Sonholências V
Alexandria. Preciso destes nomes
antigos cujo aroma penso paradoxalmente sentir no cheiro molhado da terra.
Digo paradoxalmente porque sei que Alexandria é um sítio onde raramente chove.
Digo paradoxalmente porque sei que Alexandria é um sítio onde raramente chove.
Há um tema para saxofone de Yan
Garbarek onde isso acontece. Confesso que é a primeira vez que uma música me
cheira a terra.
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