20130319

Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…




Olhas a falésia. Uma mesa. Uma mesa com uma toalha branca que esvoaça. E uma cadeira. Aproximas-te.
Sentas-te.
Sobre a mesa está uma pequena aparelhagem sonora com um único botão.
Fechas os olhos.
Quando os abres sabes que vais carregar nessa tecla. E desse gesto aparentemente simples sai um som que vai entrar para sempre na tua vida. É o som de um piano lento, como as ondas a bater nas rochas, mais provavelmente o ir e vir de uma vida.
Quando acordas dizes tive um sonho estranho. Havia uma música…
Era Erik Satie, digo-te vinte anos depois. Sorris. Pelo teu sorriso de Gioconda traída sei que era Erik Satie, por mais que te refugies na ideia de que a imagem que escolhi não tem nada a ver com isso.


20130213

Ou, talvez, no caso de se tratar de um labirinto, nele alguém caminhe, em vez de mim.



















pintura de Sophie Matisse (pormenor)


“(…) essas portas, vulgares, de aspecto talvez um pouco antigo, não dão para parte alguma. São apenas portas, quer dizer, erguem-se nessa superfície imensa sem estarem ligadas a qualquer espécie de estrutura.
Fechando os olhos -  e eis o segundo facto que me leva a supor tratar-se de um labirinto -  a mesma superfície se estende, branca e infindável(…).
Nele erro ao acaso, há bastante tempo, peregrino de um estranho caminho. Ou, talvez, no caso de se tratar de um labirinto, nele alguém caminhe, em vez de mim.”
De «Aparecimentos», ed. autor, 1989

20130211

Fico parado no eco dos meus passos




Fico parado no eco dos meus passos.
Fixo-me num som. Preciso de um som que não tenha sido produzido por mim.
 Esta aparente liberdade que é a ausência, requere uma materialidade que só um som exacto pode proporcionar. Face ao caos da correria das infantas, o som pesado do cortinado  a abrir-se e a voltar ao seu lugar, deixado pela mão de José Nieto Velázquez, é a saída que preciso para não ficar eternamente preso nesse local.
 José Nieto, sei lá porquê, chama o cão que numa correria atravessa toda a sala e sai.
E eu fico parado.
Sem querer parecer presunçoso, penso agora que passei grande parte da minha vida a tentar sair desta pintura, deste local, ou a tentar voltar a ele sempre que me afasto. E que perdi uma das minhas grandes oportunidades.

20130208

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pintura de Sophie Matisse



Velasquez fez-se representar a si próprio, segundo se crê, pintando os reis de Espanha e as infantas e aias que o terão infernizado mais do que uma clássica sessão de pintura tolera.
Sophie Matisse fez o favor de os fazer desaparecer a todos de cena.
 Imagino cada um entregue às tarefas que a libertação da pose lhes permitiu.
 Uma vez, noutro contexto, li uma observação de Walter Benjamin referindo-se ao facto de, nas fotografias antigas, aqueles que posavam entrarem dentro das imagens devido à rigidez da postura e ao tempo da imobilidade da pose.
Aqui é precisamente o oposto. Sophie não os liberta, porque  o peso da história os recolocará no seu lugar. O que Sophie faz é libertar-me a mim que passo a vida a olhar para esta pintura, e deixar-me um som que consiste basicamente em ouvir o eco dos meus próprios passos a cirandar pela galeria deserta.

Este texto é dedicado a Daniel Rodriguez, filósofo argentino cujas observações em relação a algumas das minhas fotografias me têm obrigado a pensar. Obrigado.


20130207

As biografias só são imaginárias porque as próprias vidas não o são menos



Desconheço tudo de Isabelle Eberhardt tanto mais que penso conhecer um pouco da sua vida. O seu rosto, construído ao sabor de leituras já que dele possuo poucas fotografias, conserva os traços essenciais dessa voz que se foi moldando pela visão dos desertos e das dunas.

Uma questão coloca-se-me com alguma insistência. Saber até que ponto este rosto não será mais autêntico do que o “verdadeiro”, aprisionado num fim de tarde de Tunes sobre um papel hoje provavelmente já amarelecido.
Suponhamos que possuo de Isabelle uma biografia honesta e uma boa fotografia. Nada me garante que exista a mínima coincidência entre as duas.

Se me interrogar como R. Barthes a propósito de Piet Mondrian “Como é possível ter-se um ar inteligente sem se pensar em nada de inteligente” e pensar como é possível ter um ar sereno quando essa vida é um incêndio, corro seguramente o risco de supor ter encontrado a resposta na própria voz de Isabelle sem ter que procurar muito : “A embriaguez terrível e violenta dos sentidos, intensa, delirante, contrasta singularmente com a minha existência de todos os dias, calma, reflexiva.”
Já não é o caso da mulher aparentemente vulgar que de noite se veste de jovem cavaleiro turco que aqui me interessa. É já toda e qualquer vida.

As biografias só são imaginárias, como quase defende M. Schwob, porque as próprias vidas não o são menos, mesmo para quem as vive, atrevo-me a dizer.
A minha vida só me parece mais real porque a vejo. Obviamente, penso, os biógrafos verão apenas parte dela, quando não mesmo outra coisa. Naturalmente não me apercebo que comigo sucede o mesmo.

(texto antigo, reeditado sem alterações)

20130203

Não é que não exista




Dia 5
Quando a dor é muita. Ou a perda um abismo. Ou o susto quase a tirar a vida. Ou a vida a assustar que se tira.
Aí, nós, os outros do lado de lá dessa cortina, ficamos invisíveis.
É pouco rigoroso materializar essa ideia de invisibilidade numa sombra. Mas como se pode ser rigoroso quando nos dói tanto essa tripla dor que é a ferida amada e a nossa invisibilidade somada à dúvida se o amor cura?

Dia 7
  Ou um barulho imenso, quase bíblico. Um rugido vindo de cima e é um prédio de exactamente doze andares que te cai em cima. Olhas à tua volta e não entendes o caos. Tude desaba e não te mexes nem um milímetro. O ruído abafado é estranhamente longínquo, tudo é estranhamente longínquo menos tu no meio de tudo.
Quando olhas para cima és atingida por um fragmento que não tem mais de 2 centímetros e meio mas que te deixa numa perplexidade profunda. Tão profunda que não entendes como tudo sossega de repente. Tão de repente que só sobras tu no meio desse caos desaparecido.
E eu. Mas eu tornei-me invisível. Não é que não exista.


Dia 10









Aos poucos a invisibilidade transforma-se num rio.

Um pouco como nesta fotografia de  Frederique Masselink . 

20130202

Quando a dor é muita. Para a Madalena. A sombra de uma invisibilidade que é a minha.



Quando a dor é muita. Ou a perda um abismo. Ou o susto quase a tirar a vida. Ou a vida a assustar que se tira.
Aí, nós, os outros do lado de lá dessa cortina, ficamos invisíveis.
É pouco rigoroso materializar essa ideia de invisibilidade numa sombra. Mas como se pode ser rigoroso quando nos dói tanto essa tripla dor que é a ferida amada e a nossa invisibilidade somada à dúvida se o amor cura?

20130127

Bosques meus .XII



Gosto  da forma  como Ivone Costa  trata as personagens, meio livres pela sua condição, meio condenadas a uma errância que a imaginação da autora lhes inflige. Na perspectiva de quem fotografa (ou escreve com luz, nome pomposo para a mesma coisa) é fascinante essa outra errância que é escrever com as impermanências de um porto de parede, ou de cais, ou de papel. A leitura é o porto mais parecido com uma enseada. Um seio. Uns olhos que pestanejam mais demoradamente do que o habitual após lerem.
Para encostar o olhar ao texto é fazê-lo aqui . Até que outros hóspedes abram outras páginas.

20130116

Alexandria. Sonholências V



Alexandria. Preciso destes nomes antigos cujo aroma penso paradoxalmente sentir no cheiro molhado da terra.
 Digo paradoxalmente porque sei que Alexandria é um sítio onde raramente chove.
Há um tema para saxofone de Yan Garbarek onde isso acontece. Confesso que é a primeira vez que uma música me cheira a terra.