20130211

Fico parado no eco dos meus passos




Fico parado no eco dos meus passos.
Fixo-me num som. Preciso de um som que não tenha sido produzido por mim.
 Esta aparente liberdade que é a ausência, requere uma materialidade que só um som exacto pode proporcionar. Face ao caos da correria das infantas, o som pesado do cortinado  a abrir-se e a voltar ao seu lugar, deixado pela mão de José Nieto Velázquez, é a saída que preciso para não ficar eternamente preso nesse local.
 José Nieto, sei lá porquê, chama o cão que numa correria atravessa toda a sala e sai.
E eu fico parado.
Sem querer parecer presunçoso, penso agora que passei grande parte da minha vida a tentar sair desta pintura, deste local, ou a tentar voltar a ele sempre que me afasto. E que perdi uma das minhas grandes oportunidades.

20130208

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pintura de Sophie Matisse



Velasquez fez-se representar a si próprio, segundo se crê, pintando os reis de Espanha e as infantas e aias que o terão infernizado mais do que uma clássica sessão de pintura tolera.
Sophie Matisse fez o favor de os fazer desaparecer a todos de cena.
 Imagino cada um entregue às tarefas que a libertação da pose lhes permitiu.
 Uma vez, noutro contexto, li uma observação de Walter Benjamin referindo-se ao facto de, nas fotografias antigas, aqueles que posavam entrarem dentro das imagens devido à rigidez da postura e ao tempo da imobilidade da pose.
Aqui é precisamente o oposto. Sophie não os liberta, porque  o peso da história os recolocará no seu lugar. O que Sophie faz é libertar-me a mim que passo a vida a olhar para esta pintura, e deixar-me um som que consiste basicamente em ouvir o eco dos meus próprios passos a cirandar pela galeria deserta.

Este texto é dedicado a Daniel Rodriguez, filósofo argentino cujas observações em relação a algumas das minhas fotografias me têm obrigado a pensar. Obrigado.


20130207

As biografias só são imaginárias porque as próprias vidas não o são menos



Desconheço tudo de Isabelle Eberhardt tanto mais que penso conhecer um pouco da sua vida. O seu rosto, construído ao sabor de leituras já que dele possuo poucas fotografias, conserva os traços essenciais dessa voz que se foi moldando pela visão dos desertos e das dunas.

Uma questão coloca-se-me com alguma insistência. Saber até que ponto este rosto não será mais autêntico do que o “verdadeiro”, aprisionado num fim de tarde de Tunes sobre um papel hoje provavelmente já amarelecido.
Suponhamos que possuo de Isabelle uma biografia honesta e uma boa fotografia. Nada me garante que exista a mínima coincidência entre as duas.

Se me interrogar como R. Barthes a propósito de Piet Mondrian “Como é possível ter-se um ar inteligente sem se pensar em nada de inteligente” e pensar como é possível ter um ar sereno quando essa vida é um incêndio, corro seguramente o risco de supor ter encontrado a resposta na própria voz de Isabelle sem ter que procurar muito : “A embriaguez terrível e violenta dos sentidos, intensa, delirante, contrasta singularmente com a minha existência de todos os dias, calma, reflexiva.”
Já não é o caso da mulher aparentemente vulgar que de noite se veste de jovem cavaleiro turco que aqui me interessa. É já toda e qualquer vida.

As biografias só são imaginárias, como quase defende M. Schwob, porque as próprias vidas não o são menos, mesmo para quem as vive, atrevo-me a dizer.
A minha vida só me parece mais real porque a vejo. Obviamente, penso, os biógrafos verão apenas parte dela, quando não mesmo outra coisa. Naturalmente não me apercebo que comigo sucede o mesmo.

(texto antigo, reeditado sem alterações)

20130203

Não é que não exista




Dia 5
Quando a dor é muita. Ou a perda um abismo. Ou o susto quase a tirar a vida. Ou a vida a assustar que se tira.
Aí, nós, os outros do lado de lá dessa cortina, ficamos invisíveis.
É pouco rigoroso materializar essa ideia de invisibilidade numa sombra. Mas como se pode ser rigoroso quando nos dói tanto essa tripla dor que é a ferida amada e a nossa invisibilidade somada à dúvida se o amor cura?

Dia 7
  Ou um barulho imenso, quase bíblico. Um rugido vindo de cima e é um prédio de exactamente doze andares que te cai em cima. Olhas à tua volta e não entendes o caos. Tude desaba e não te mexes nem um milímetro. O ruído abafado é estranhamente longínquo, tudo é estranhamente longínquo menos tu no meio de tudo.
Quando olhas para cima és atingida por um fragmento que não tem mais de 2 centímetros e meio mas que te deixa numa perplexidade profunda. Tão profunda que não entendes como tudo sossega de repente. Tão de repente que só sobras tu no meio desse caos desaparecido.
E eu. Mas eu tornei-me invisível. Não é que não exista.


Dia 10









Aos poucos a invisibilidade transforma-se num rio.

Um pouco como nesta fotografia de  Frederique Masselink . 

20130202

Quando a dor é muita. Para a Madalena. A sombra de uma invisibilidade que é a minha.



Quando a dor é muita. Ou a perda um abismo. Ou o susto quase a tirar a vida. Ou a vida a assustar que se tira.
Aí, nós, os outros do lado de lá dessa cortina, ficamos invisíveis.
É pouco rigoroso materializar essa ideia de invisibilidade numa sombra. Mas como se pode ser rigoroso quando nos dói tanto essa tripla dor que é a ferida amada e a nossa invisibilidade somada à dúvida se o amor cura?

20130127

Bosques meus .XII



Gosto  da forma  como Ivone Costa  trata as personagens, meio livres pela sua condição, meio condenadas a uma errância que a imaginação da autora lhes inflige. Na perspectiva de quem fotografa (ou escreve com luz, nome pomposo para a mesma coisa) é fascinante essa outra errância que é escrever com as impermanências de um porto de parede, ou de cais, ou de papel. A leitura é o porto mais parecido com uma enseada. Um seio. Uns olhos que pestanejam mais demoradamente do que o habitual após lerem.
Para encostar o olhar ao texto é fazê-lo aqui . Até que outros hóspedes abram outras páginas.

20130116

Alexandria. Sonholências V



Alexandria. Preciso destes nomes antigos cujo aroma penso paradoxalmente sentir no cheiro molhado da terra.
 Digo paradoxalmente porque sei que Alexandria é um sítio onde raramente chove.
Há um tema para saxofone de Yan Garbarek onde isso acontece. Confesso que é a primeira vez que uma música me cheira a terra.

20121229

Como uma espécie de asa



Para que possamos tomar conhecimento dessa série de curiosas coincidências a que chamamos uma vida – esse voo tão breve – é necessário que alguns sulcos se tenham inscrito com um mínimo de profundidade num número considerável de livros, vidas, objetos, lugares.
 A evaporação desses sulcos deu lugar não raras vezes a delicadas aparições cuja luminosidade radica na exata proporção do seu quase desaparecimento.
Safo de Lesbos encontrar-se-á neste caso.
Tem sido repetido com alguma insistência o facto de a sua obra ter sido alvo da ferocidade cristã sob o pretexto de imoralidade.
Desse labor resultaram mutilações irrecuperáveis, desaparecimentos, adulterações várias. Em última análise, sem esse conjunto de circunstâncias estaria provavelmente privado de imaginar a poetisa como uma espécie de asa.

Texto revisto e reeditado.
A fotografia foi feita em Évora em dezembro de 2012. Não me foi possível apurar o autor da escultura.