20130202

Quando a dor é muita. Para a Madalena. A sombra de uma invisibilidade que é a minha.



Quando a dor é muita. Ou a perda um abismo. Ou o susto quase a tirar a vida. Ou a vida a assustar que se tira.
Aí, nós, os outros do lado de lá dessa cortina, ficamos invisíveis.
É pouco rigoroso materializar essa ideia de invisibilidade numa sombra. Mas como se pode ser rigoroso quando nos dói tanto essa tripla dor que é a ferida amada e a nossa invisibilidade somada à dúvida se o amor cura?

20130127

Bosques meus .XII



Gosto  da forma  como Ivone Costa  trata as personagens, meio livres pela sua condição, meio condenadas a uma errância que a imaginação da autora lhes inflige. Na perspectiva de quem fotografa (ou escreve com luz, nome pomposo para a mesma coisa) é fascinante essa outra errância que é escrever com as impermanências de um porto de parede, ou de cais, ou de papel. A leitura é o porto mais parecido com uma enseada. Um seio. Uns olhos que pestanejam mais demoradamente do que o habitual após lerem.
Para encostar o olhar ao texto é fazê-lo aqui . Até que outros hóspedes abram outras páginas.

20130116

Alexandria. Sonholências V



Alexandria. Preciso destes nomes antigos cujo aroma penso paradoxalmente sentir no cheiro molhado da terra.
 Digo paradoxalmente porque sei que Alexandria é um sítio onde raramente chove.
Há um tema para saxofone de Yan Garbarek onde isso acontece. Confesso que é a primeira vez que uma música me cheira a terra.

20121229

Como uma espécie de asa



Para que possamos tomar conhecimento dessa série de curiosas coincidências a que chamamos uma vida – esse voo tão breve – é necessário que alguns sulcos se tenham inscrito com um mínimo de profundidade num número considerável de livros, vidas, objetos, lugares.
 A evaporação desses sulcos deu lugar não raras vezes a delicadas aparições cuja luminosidade radica na exata proporção do seu quase desaparecimento.
Safo de Lesbos encontrar-se-á neste caso.
Tem sido repetido com alguma insistência o facto de a sua obra ter sido alvo da ferocidade cristã sob o pretexto de imoralidade.
Desse labor resultaram mutilações irrecuperáveis, desaparecimentos, adulterações várias. Em última análise, sem esse conjunto de circunstâncias estaria provavelmente privado de imaginar a poetisa como uma espécie de asa.

Texto revisto e reeditado.
A fotografia foi feita em Évora em dezembro de 2012. Não me foi possível apurar o autor da escultura.

20121114

Jogo de incêndios


                                                                                                                                                                      Fotografia de Erno Vadas

Em si mesma, a luz só parece ganhar vida quando sobre ela incide um olhar.
Numa belíssima fotografia de Erno Vadas intitulada “Guardadora de gansos na Hungria” a luz parece emanar das coisas, como se fossem elas que por si só se iluminassem, ou se acendessem por uma qualquer e misteriosa causa.
Uma transpiração de luz sem sombra de dúvida provocada por um olhar, o do fotógrafo, como se pudesse deduzir por esse excesso de beleza que o autor se encontraria apaixonado. Pela Hungria ou pela própria beleza, o que para todos os efeitos para ele seria o mesmo.
Que um outro ser ausente da fotografia possa estar por detrás deste jogo de incêndios não me admiraria nada.


 
                                                                                                      Fotografia de Émile Frechon

É ainda essa mesma luz que numa fotografia de Émile Frechon parece ser absorvida por um corpo, transformando-se num véu. Toda a luz do mundo não conseguiria atravessar a cortina desses olhos. Essas duas lagoas só são navegáveis por outro olhar, esse estranho e antiquíssimo meio de transporte.

(texto reeditado)