20120927

Hammershöi




Acho que não sabes, mas já há algum tempo que vivo dentro de uma pintura de Hammershoi. Entrei nela num fim de tarde de Setembro e nunca mais me apeteceu sair. Tenho lá tudo o que preciso. Transporto-a nos olhos, de modo que anda sempre comigo.
Ao princípio pensei que isso ia ser um problema. Ver através de uma casa vazia e antiga e que ainda por cima não era minha. Não demorei muito a descobrir que essa espécie de lente era exactamente a minha dioptria.
(texto reeditado)

20120901

É já Setembro, digo-te. II




Nunca tive amores de verão no sentido em que não tivessem entrado depois de Agosto pela minha vida.
Ultrapassado o meio século de existência, não só não dou maior valor à presença de qualquer vestígio material desses acontecimentos, como o seu desaparecimento não constitui qualquer problema.
Como os mineiros, provavelmente, interessa-me o espaço que abriram dentro de mim. Essas galerias, umas vezes invisíveis outras físicas, não são o mapa pelo qual me oriento, mas constituem uma geografia secreta .. Mais um higrómetro do que uma bússola, digamos assim.
Estas escrevinhagens foram despoletadas pela descoberta de um antigo texto meu que julgava perdido e diz o seguinte:
Walter Benjamin dedica o conjunto de textos intitulado “Rua de Sentido Único” a Asja Lacis da seguinte forma: « Esta rua chama-se Rua Asja Lacis, em homenagem àquela que, como engenheiro, a rasgou no íntimo do autor».
Esta espécie de estrela cadente que de 1924 a 1930 se terá demorado o suficiente para deixar marcas, tê-las- à deixado em quantos outros textos e durante quanto mais tempo ainda?”
E esta dúvida assenta-me como uma luva.