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20120806
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20120730
20120728
20120727
Um abrigo absoluto
Gosto desta fotografia antiga. Da sabedoria destes
corpos protegendo-se do calor. Do sorriso da criança que uma quase apagada
caligrafia no verso me diz ser eu.
A jovem mulher sob cujo corpo terei encontrado um
abrigo absoluto e faz hoje 84 anos, tem um rosto tão belo que me encanta.
Curiosamente são os braços que me seguram as pernas que me comovem.
É de qualquer modo estranho que seja a sombra que
não se vê mas se pressente aquilo que mais me enternece. Adivinho por detrás da
impaciência do fotógrafo um contratempo surgido da inflexível determinação de
proteger do sol esta cria ainda tão jovem.
Noutro contexto, foi inicialmente
publicada aqui
20120725
20120722
20120718
Dance, Manoel, volte a dançar que o resto é nada
Estava a pensar naquela vez em que me apeteceu fumar um
charuto e fomos ao bar exterior do Hotel Porto Santo onde um pianista quase
solitário tocava temas vagamente jazzísticos de viagem de cruzeiro e um casal
se levantou e começou a dançar. Fiquei imenso tempo a olhá-los, fascinado.
Quando me disseste como se soubesses de um tesouro que reparasse melhor e
percebi quem eram, nunca mais os filmes, certos filmes, foram os mesmos.
Casablanca foi um dos mais atingidos. Manoel de Oliveira dançava com a esposa
como se o mundo se suspendesse. E eu, que tinha acabado de chegar à ilha não
havia três horas, às onze e meia de uma noite cálida, tive o privilégio nunca
mais repetido de o ver efectivamente por momentos suspender-se.
20120716
Esta noite sonhei com Magritte II
Reacendimentos (1)
1
Todas as raparigas que amei nunca mais as deixei sair da
minha vida. Algumas nem devem ter reparado que eu existia.
São todas jovens espigas de trigo à maneira helénica. Tenho
por hábito fechar os olhos de tempos a tempos e vê-las. Sem elas nunca teria crescido.
Devem ter envelhecido como eu. Sento-me à sombra de um templo esquecido pelas
multidões e sorrio. Sinto-me tão bem aqui, penso. Acho que dentro de mim elas
se transformaram em colunas gregas.
2
Sempre que regresso a essa casa, fechando os olhos à medida
que a reconstituo para depois os poder abrir, sou invadido por uma estranha
serenidade, ou melancolia, que me provocam as coisas antigas.
Existem nessa casa inúmeros corpos. Sei que um deles é
extraordinariamente belo, talvez traga ainda os sapatos na mão, e um colar de
pérolas à cintura.
Como todas as recordações de infância, ele é branco, por
vezes coberto por uma leve e dourada penugem.
A sua nudez é mínima. É no entanto isso que o torna numa
pura recordação de beleza, e desejo, e luxúria.
3
Podes sempre agarrar em pequenas coisas e esquecer-te delas
nos bolsos, ou a marcar páginas de livros.
Mais tarde transformar-se- ão em estranhas pedras brancas,
como sirenes por entre o nevoeiro, ou rios.
4
Ia para Sesimbra no começo dos verões. Nesse tempo por qualquer
razão o verão demorava mais tempo.
No liceu alguém me disse que alguém lhe tinha dito que
gostavas de mim. Foi o suficiente para que as minhas borbulhas tomassem
proporções gigantescas e tudo fizesse para desaparecer. Acho que tinha medo das
raparigas.
Tinhas um café na estrada para Sesimbra. Os meus pais nunca
descobriram porque ficava tão nervoso nessa recta. Porque precisavam de me
dizer a mesma coisa três vezes.
Uma vez vi-te à porta. Estavas de pé à porta e nunca mais vi
nada tão aterrador e tão belo.
Passado tanto tempo já nada existe, a não ser essa recta.
Desapareceu tudo à volta. Sabes que quando lá passo ainda te vejo?
5
Ela volta-se para trás porque talvez tenha ouvido um remo na
água, ou o som de um peixe a saltar a afaste momentaneamente da leitura. Fica a
olhar porque lhe faz impressão. À medida que o barco se aproxima o homem vai
diminuindo. E no livro estava escrito pela voz de uma personagem “há coisas que
se afastam, outras que se aproximam, outras que não saem do mesmo sítio e
desaparecem por isso.”
6
Conheço um pouco a antiga poesia mediterrânica árabe.
Ser-me-ia talvez fácil, tanto quanto isso é possível, comparar a quase
imperceptível contracção do teu colo àquela curva do rio no sentido da
nascente.
Interpretaria o súbito arrepio da pele como fruto da chegada
dos guerreiros, esse afloramento em tudo semelhante ao vento norte que faz
subir as próprias águas.
Vim contudo de muito mais longe. Nesses lugares são
desconhecidas estas espécies de tempestades.
De tão longe que após as actividades do amor não me
importava que tudo cheirasse a feno. Esse calor que do teu corpo se desprende
se transformasse na própria tarde para os meus lábios.
7
Existirá provavelmente uma predisposição dos meses para
certos nomes. Junho é propício à inclinação dos corpos saindo de si mesmos,
como Fevereiro o é às pequenas lesmas e aos animais celebrantes das chuvas e
dos súbitos anoitecer.
De Julho diria como adormeço a adivinhar-te a curva dos
joelhos.
8
Desenvolvi com o tempo a capacidade de olhar através das
coisas. O efeito é curioso. Estou sentado numa esplanada e olho fixamente uma
porta azul em frente. Como tenho saudades do verão, os veios e os nódulos
aumentam de tal maneira que se transformam em enseadas e mapas secretos. São
mapas secretos porque só eu os consigo atravessar. Até esses verões em que
punha creme nívea em todo o lado menos na cara. E sabes porquê?
Ficava com sardas. Imaginava que gostavas de rapazes com
sardas. Uma espécie de aparelho nos dentes, como todas as raparigas têm agora.
Nessa altura ainda havia enguias no rio. Apanhava-as e
punha-as dentro de frascos. Também julgava que isso te impressionava.
9
Nunca soube verdadeiramente o teu nome, Marion. Acho que era
um diminutivo e isso na altura chegava-me. Amei-te durante um Verão inteiro sem
que desconfiasses. Uma noite em que tiveste frio emprestei-te a minha camisola
alemã azul forte de marinheiro com fecho em cima que fazia gola alta. Dormiste
toda a noite com ela, enroscada como uma gata. Sabes que ainda a tenho passado
este tempo? Nunca a mandei lavar em Setembro, como era hábito. Ficou assim.
Também nunca mais a vesti. Mudo-a às vezes de gaveta e aproveito para sonhar.
______________________
(1) Reacendimentos
Estes textos são na sua maioria de difícil datação… ou
porque correspondem a páginas extintas ou porque os sinto tanto que, mesmo antigos,
se reacenderam, como é o caso do último que aqui ponho e é o mais antigo e o
mais actual. Não me apetece reescrevê-los nem melhorá-los.
20120714
20120712
Tão longe do mar, o mar.
Ou um nome. Dizes um nome como um fio e dentro de ti acontecem transformações
intensas e invisíveis. Quem estiver a falar poderá no máximo detectar uma
ligeira tremura, um alheamento imperceptível.
Estes textos que se seguem e porque é verão me apetece e volto
a publicar online, depois de apagados ou quase perdidos, nasceram assim. Como rios.
1
A mais
antiga e provavelmente a primeira ideia de viagem, tive-a através de um corpo.
Essa ideia é-me ainda hoje uma coisa física. Sei-lhe sobretudo as formas, as
texturas, diria os pisos.
Os olhos
percorrem-na como outrora o fizeram sobre esse primeiro amor impossível
condenado a partir no fim da segunda semana desse verão.
Desse
desaparecimento ficou-me das viagens uma sensação vagamente marítima. Passado
tanto tempo partir dói-me ainda.
Esta dor
antiga que em parte terá cicatrizado, reabre-se a cada fotografia longínqua,
certos mapas, meia dúzia de palavras pronunciadas numa língua desconhecida.
Talvez todo
o viajante pouco mais faça do que percorrer essa espécie de caminhos que são
estas feridas.
Naturalmente,
e de acordo com cada caso, elas variarão em tamanho e profundidade.
2
Fundir-me
com o calor a partir desta sombra. Fechar-me nela como se fecham uns suados
joelhos de mulher. A sabedoria desse mecanismo que parece exactamente concebido
para o Verão ou para as longas noites perto da lareira. Para o calor, de
qualquer modo. Percebê-lo com os lábios. Fechar os olhos e esconder o rosto
nesse odor, nessa neblina.
3
Deixa-me
escolher um rosto antigo, repousar momentaneamente no casulo dessa luz já
extinta cujo brilho se assemelha aos seixos brancos de um rio.
Preciso
destas paisagens tranquilas, destas passagens sem portas, desta maneira de ir.
Necessito do silêncio destes rostos, do repouso fóssil destes rios.
4
Eis-nos pois
sob os primeiros calores como que desejando a doce ameaça do Verão. Sem corpos
e areia o Verão não existiria, sobretudo se o privarmos dessa espécie de
sentidos caminhando sobre ela.
A suave
brutalidade da areia ardendo, um chapéu de praia que se mostrou ineficiente
face ao vento, velhos amores continuadamente adormecidos à sombra das antigas e
listadas barracas de praia.
Do Verão se
traz um livro ou uma carta, o gosto estranho da sombra que se confunde com o do
amor, uma ou outra concha desabitada.
Conheço
aliás poucos sítios a que por estas ou outras razões tanta gente deseje
regressar.
Porque o
Verão é um sítio, digo-te. Apenas para o caso de me quereres encontrar.
5
Deixa-me
dizer-te nomes quentes. Ver-te estremecer por causa dessas lâminas róseas que
são os lábios e as palavras. Abrir-te assim tão devagar.
6
Dissolver-me
na luz. Encostar-me a esse muro invisível e fechar os olhos. Deixar-me ir rente
ao suave calor das pálpebras, de amor em amor, de verão em verão, como quem
regressa.
20120709
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