20120727

Um abrigo absoluto



Gosto desta fotografia antiga. Da sabedoria destes corpos protegendo-se do calor. Do sorriso da criança que uma quase apagada caligrafia no verso me diz ser eu.
A jovem mulher sob cujo corpo terei encontrado um abrigo absoluto e faz hoje 84 anos, tem um rosto tão belo que me encanta. Curiosamente são os braços que me seguram as pernas que me comovem.
É de qualquer modo estranho que seja a sombra que não se vê mas se pressente aquilo que mais me enternece. Adivinho por detrás da impaciência do fotógrafo um contratempo surgido da inflexível determinação de proteger do sol esta cria ainda tão jovem.

Noutro contexto, foi inicialmente publicada  aqui 

20120718

Dance, Manoel, volte a dançar que o resto é nada




Estava a pensar naquela vez em que me apeteceu fumar um charuto e fomos ao bar exterior do Hotel Porto Santo onde um pianista quase solitário tocava temas vagamente jazzísticos de viagem de cruzeiro e um casal se levantou e começou a dançar. Fiquei imenso tempo a olhá-los, fascinado. Quando me disseste como se soubesses de um tesouro que reparasse melhor e percebi quem eram, nunca mais os filmes, certos filmes, foram os mesmos. Casablanca foi um dos mais atingidos. Manoel de Oliveira dançava com a esposa como se o mundo se suspendesse. E eu, que tinha acabado de chegar à ilha não havia três horas, às onze e meia de uma noite cálida, tive o privilégio nunca mais repetido de o ver efectivamente por momentos suspender-se.

20120716

Esta noite sonhei com Magritte II



Reacendimentos (1)

1
Todas as raparigas que amei nunca mais as deixei sair da minha vida. Algumas nem devem ter reparado que eu existia.
São todas jovens espigas de trigo à maneira helénica. Tenho por hábito fechar os olhos de tempos a tempos e vê-las. Sem elas nunca teria crescido. Devem ter envelhecido como eu. Sento-me à sombra de um templo esquecido pelas multidões e sorrio. Sinto-me tão bem aqui, penso. Acho que dentro de mim elas se transformaram em colunas gregas.


2
Sempre que regresso a essa casa, fechando os olhos à medida que a reconstituo para depois os poder abrir, sou invadido por uma estranha serenidade, ou melancolia, que me provocam as coisas antigas.
Existem nessa casa inúmeros corpos. Sei que um deles é extraordinariamente belo, talvez traga ainda os sapatos na mão, e um colar de pérolas à cintura.
Como todas as recordações de infância, ele é branco, por vezes coberto por uma leve e dourada penugem.
A sua nudez é mínima. É no entanto isso que o torna numa pura recordação de beleza, e desejo, e luxúria.


3
Podes sempre agarrar em pequenas coisas e esquecer-te delas nos bolsos, ou a marcar páginas de livros.
Mais tarde transformar-se- ão em estranhas pedras brancas, como sirenes por entre o nevoeiro, ou rios.


4
Ia para Sesimbra no começo dos verões. Nesse tempo por qualquer razão o verão demorava mais tempo.
No liceu alguém me disse que alguém lhe tinha dito que gostavas de mim. Foi o suficiente para que as minhas borbulhas tomassem proporções gigantescas e tudo fizesse para desaparecer. Acho que tinha medo das raparigas.
Tinhas um café na estrada para Sesimbra. Os meus pais nunca descobriram porque ficava tão nervoso nessa recta. Porque precisavam de me dizer a mesma coisa três vezes.
Uma vez vi-te à porta. Estavas de pé à porta e nunca mais vi nada tão aterrador e tão belo.
Passado tanto tempo já nada existe, a não ser essa recta. Desapareceu tudo à volta. Sabes que quando lá passo ainda te vejo?


5
Ela volta-se para trás porque talvez tenha ouvido um remo na água, ou o som de um peixe a saltar a afaste momentaneamente da leitura. Fica a olhar porque lhe faz impressão. À medida que o barco se aproxima o homem vai diminuindo. E no livro estava escrito pela voz de uma personagem “há coisas que se afastam, outras que se aproximam, outras que não saem do mesmo sítio e desaparecem por isso.”

6
Conheço um pouco a antiga poesia mediterrânica árabe. Ser-me-ia talvez fácil, tanto quanto isso é possível, comparar a quase imperceptível contracção do teu colo àquela curva do rio no sentido da nascente.
Interpretaria o súbito arrepio da pele como fruto da chegada dos guerreiros, esse afloramento em tudo semelhante ao vento norte que faz subir as próprias águas.
Vim contudo de muito mais longe. Nesses lugares são desconhecidas estas espécies de tempestades.
De tão longe que após as actividades do amor não me importava que tudo cheirasse a feno. Esse calor que do teu corpo se desprende se transformasse na própria tarde para os meus lábios.

7
Existirá provavelmente uma predisposição dos meses para certos nomes. Junho é propício à inclinação dos corpos saindo de si mesmos, como Fevereiro o é às pequenas lesmas e aos animais celebrantes das chuvas e dos súbitos anoitecer.
De Julho diria como adormeço a adivinhar-te a curva dos joelhos.


8
Desenvolvi com o tempo a capacidade de olhar através das coisas. O efeito é curioso. Estou sentado numa esplanada e olho fixamente uma porta azul em frente. Como tenho saudades do verão, os veios e os nódulos aumentam de tal maneira que se transformam em enseadas e mapas secretos. São mapas secretos porque só eu os consigo atravessar. Até esses verões em que punha creme nívea em todo o lado menos na cara. E sabes porquê?
Ficava com sardas. Imaginava que gostavas de rapazes com sardas. Uma espécie de aparelho nos dentes, como todas as raparigas têm agora.
Nessa altura ainda havia enguias no rio. Apanhava-as e punha-as dentro de frascos. Também julgava que isso te impressionava.

9
Nunca soube verdadeiramente o teu nome, Marion. Acho que era um diminutivo e isso na altura chegava-me. Amei-te durante um Verão inteiro sem que desconfiasses. Uma noite em que tiveste frio emprestei-te a minha camisola alemã azul forte de marinheiro com fecho em cima que fazia gola alta. Dormiste toda a noite com ela, enroscada como uma gata. Sabes que ainda a tenho passado este tempo? Nunca a mandei lavar em Setembro, como era hábito. Ficou assim. Também nunca mais a vesti. Mudo-a às vezes de gaveta e aproveito para sonhar.



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   (1) Reacendimentos 

Estes textos são na sua maioria de difícil datação… ou porque correspondem a páginas extintas ou porque os sinto tanto que, mesmo antigos, se reacenderam, como é o caso do último que aqui ponho e é o mais antigo e o mais actual. Não me apetece reescrevê-los nem melhorá-los.

20120712

Tão longe do mar, o mar.




Ou um nome. Dizes um nome como um fio  e dentro de ti acontecem transformações intensas e invisíveis. Quem estiver a falar poderá no máximo detectar uma ligeira tremura, um alheamento imperceptível.
Estes textos que se seguem e porque é verão me apetece e volto a publicar online, depois de apagados ou quase perdidos,  nasceram assim. Como rios.

1
A mais antiga e provavelmente a primeira ideia de viagem, tive-a através de um corpo. Essa ideia é-me ainda hoje uma coisa física. Sei-lhe sobretudo as formas, as texturas, diria os pisos.
Os olhos percorrem-na como outrora o fizeram sobre esse primeiro amor impossível condenado a partir no fim da segunda semana desse verão.
Desse desaparecimento ficou-me das viagens uma sensação vagamente marítima. Passado tanto tempo partir dói-me ainda.
Esta dor antiga que em parte terá cicatrizado, reabre-se a cada fotografia longínqua, certos mapas, meia dúzia de palavras pronunciadas numa língua desconhecida.
Talvez todo o viajante pouco mais faça do que percorrer essa espécie de caminhos que são estas feridas.
Naturalmente, e de acordo com cada caso, elas variarão em tamanho e profundidade.

2
Fundir-me com o calor a partir desta sombra. Fechar-me nela como se fecham uns suados joelhos de mulher. A sabedoria desse mecanismo que parece exactamente concebido para o Verão ou para as longas noites perto da lareira. Para o calor, de qualquer modo. Percebê-lo com os lábios. Fechar os olhos e esconder o rosto nesse odor, nessa neblina.

3
Deixa-me escolher um rosto antigo, repousar momentaneamente no casulo dessa luz já extinta cujo brilho se assemelha aos seixos brancos de um rio.
Preciso destas paisagens tranquilas, destas passagens sem portas, desta maneira de ir. Necessito do silêncio destes rostos, do repouso fóssil destes rios.

4
Eis-nos pois sob os primeiros calores como que desejando a doce ameaça do Verão. Sem corpos e areia o Verão não existiria, sobretudo se o privarmos dessa espécie de sentidos caminhando sobre ela.
A suave brutalidade da areia ardendo, um chapéu de praia que se mostrou ineficiente face ao vento, velhos amores continuadamente adormecidos à sombra das antigas e listadas barracas de praia.
Do Verão se traz um livro ou uma carta, o gosto estranho da sombra que se confunde com o do amor, uma ou outra concha desabitada.
Conheço aliás poucos sítios a que por estas ou outras razões tanta gente deseje regressar.
Porque o Verão é um sítio, digo-te. Apenas para o caso de me quereres encontrar.

5
Deixa-me dizer-te nomes quentes. Ver-te estremecer por causa dessas lâminas róseas que são os lábios e as palavras. Abrir-te assim tão devagar.

6
Dissolver-me na luz. Encostar-me a esse muro invisível e fechar os olhos. Deixar-me ir rente ao suave calor das pálpebras, de amor em amor, de verão em verão, como quem regressa.