20120521

Até a boca ficar húmida dentro da cabeça











Já não tenho qualquer hipótese a não ser deitar-me de bruços num pedaço de terra ou areia quente. Alargar as narinas até me entrar o odor a maré, vazia ou cheia, pode ser qualquer uma desde que  me abra por dentro. Soletrar até a boca ficar húmida dentro da cabeça. Todos os problemas começam quando deixamos de ter humidade dentro da cabeça. Isso digo-te. Porque sei.

20120518

Para além de um certo ponto o cansaço torna-se leito.






Dia um
Para além de um certo ponto o cansaço torna-se leito.
Desconheço quase tudo da chegada de Jacqueline.
Imagino uns faróis, uns olhos cansados e quase ausentes a olhar através deles.
Aquilo que podia ser o olhar entusiasmado da chegada a um sítio misterioso deve ser substituído pelo incómodo de um clarear inóspito que a arranca do território nimbado onde se refugiou.

Dia dois
As crianças têm dificuldade em fazer o que normalmente fazem com as amas – afastar-se da mãe.
Vejo-as a atirar desinteressadas pequenos seixos redondos para a água. Um momentâneo alarido em crescendo quando resolvem atirá-los umas às outras que se suspende tão inesperadamente como começou, trinta segundos, não mais.
Um vulto fortuito na varanda lembra-lhes o aviso da absoluta necessidade de descanso da mãe. Um pio de gaivota ou um caranguejo indeciso devolve-lhes o entusiasmo contido para que foram treinadas.





20120504

Gostava de chamar-lhe “ponto de fuga” mas ambos sabemos que é outra coisa.



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Gostava de chamar-lhe “ponto de fuga” mas ambos sabemos que é outra coisa. Por delicadeza não falamos disso nem lhe damos nome. O nosso último porto de abrigo é a cumplicidade de termos percebido que a impermanência e a  errância não nos impedem de rir desde que deixámos de nos agarrar aos nomes.  Fiquei quase feliz por te lembrares perfeitamente que foste tu com os teus braços que me ensinaste a nadar. Já nem para mim é importante saber se tenho quatro ou oitenta e seis anos. Verdadeiramente importante é passado tanto tempo termos aprendido de novo a importância dos braços.

20120429

“Houve um dia, creio que se tratava de uma tarde de Abril, fria como as deste ano, em que percebi que tinha envelhecido sem remissão.” (*)

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Decidi então que a cada vez que ia ter contigo o faria como quem entra dentro de uma pintura de Costa Pinheiro. Prefiro que isso aconteça num quadro de um pintor que gostes. E assim faço quando te visito. E assim é. As maresias caiem bem a ambos, e nem sequer é por motivos diferentes. 

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(*) Título tirado deste excelente texto o-mes-de-abril-que-nao-regressa 
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20120410

Ninguém muda a água a labirintos


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Ah, mas ele adorou as flores que lhe deixou, disse a rapariga.
A. sorri como se por esse gesto acendesse uma luz. Está cansada das palavras, da repetição que implicam. Por isso as escreve como quem tece fios idênticos aos que ajudaram os heróis antigos a sair dos labirintos. Um fio de palavras.
Ninguém vai mudar a água às flores, pensa. Ninguém muda a água a labirintos. E aflige-se .
(para a minha mãe)