20120513
20120510
20120506
20120504
Gostava de chamar-lhe “ponto de fuga” mas ambos sabemos que é outra coisa.
_______________
Gostava
de chamar-lhe “ponto de fuga” mas ambos sabemos que é outra coisa. Por
delicadeza não falamos disso nem lhe damos nome. O nosso último porto de abrigo
é a cumplicidade de termos percebido que a impermanência e a errância não nos
impedem de rir desde que deixámos de nos agarrar aos nomes. Fiquei quase feliz por te lembrares perfeitamente
que foste tu com os teus braços que me ensinaste a nadar. Já nem para mim é
importante saber se tenho quatro ou oitenta e seis anos. Verdadeiramente
importante é passado tanto tempo termos aprendido de novo a importância dos
braços.
20120502
20120501
20120430
20120429
“Houve um dia, creio que se tratava de uma tarde de Abril, fria como as deste ano, em que percebi que tinha envelhecido sem remissão.” (*)
.
Decidi então que a cada vez que ia ter contigo o faria como
quem entra dentro de uma pintura de Costa Pinheiro. Prefiro que isso aconteça
num quadro de um pintor que gostes. E assim faço quando te visito. E assim é. As
maresias caiem bem a ambos, e nem sequer é por motivos diferentes.
________
(*) Título
tirado deste excelente texto o-mes-de-abril-que-nao-regressa
clicar na ligação acima para abrir
clicar na ligação acima para abrir
20120428
20120422
20120416
20120414
20120413
20120410
Ninguém muda a água a labirintos
_____________
Ah, mas ele
adorou as flores que lhe deixou, disse a rapariga.
A. sorri
como se por esse gesto acendesse uma luz. Está cansada das palavras, da
repetição que implicam. Por isso as escreve como quem tece fios idênticos aos
que ajudaram os heróis antigos a sair dos labirintos. Um fio de palavras.
Ninguém vai
mudar a água às flores, pensa. Ninguém muda a água a labirintos. E aflige-se .
(para a minha mãe)
20120408
20120405
um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos
________
Ah, mas tem
aqui umas lindas flores que lhe deixou a esposa, disse a rapariga.
C suspira
como se esse gesto apagasse a luz. As palavras chegam ao fim, quer dizer,
deixam de se ouvir. Na realidade elas continuam dentro de si com os seus
pequenos ecos que o impedem de dormir.
Um fio de
palavras, ou um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos, não mais do que
isso.
(para o meu
pai)
20120403
Melancolia
_________________
Quem nasce
numa cidade portuária nunca chega verdadeiramente a sair dela. Transporta-a
dentro de si como um nómada o deserto ou um náufrago o ultimo cigarro.
A sirene de
um barco contém em si toda a melancolia do mundo, porque os grandes navios não
chegam, apenas partem.
Aconteceu-me
numa cidade estrangeira ouvir esse som carregado de bruma no meio do intenso
movimento dos carros e do ininterrupto ruído de fundo. Assim que me foi
possível procurei o porto como quem procura droga, ou um bálsamo.
Esse bálsamo
é triste e calmo. Uma mistura de melancolia e simultânea vontade de partir e de
ficar.
20120402
20120331
20120329
20120327
20120324
Uma ferida de luz
Parou e olhou para a luz, para o rendilhado que esta tecia
no chão, na ferida deixada na árvore. Uma ferida de luz, disse. A luz pode
ferir. Como o silêncio um pouco hostil dos sítios que de repente se tornam
outros. Ou porque crescemos. Ou porque ainda não crescemos. Ou por qualquer
outro motivo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)