20120429

“Houve um dia, creio que se tratava de uma tarde de Abril, fria como as deste ano, em que percebi que tinha envelhecido sem remissão.” (*)

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Decidi então que a cada vez que ia ter contigo o faria como quem entra dentro de uma pintura de Costa Pinheiro. Prefiro que isso aconteça num quadro de um pintor que gostes. E assim faço quando te visito. E assim é. As maresias caiem bem a ambos, e nem sequer é por motivos diferentes. 

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(*) Título tirado deste excelente texto o-mes-de-abril-que-nao-regressa 
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20120410

Ninguém muda a água a labirintos


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Ah, mas ele adorou as flores que lhe deixou, disse a rapariga.
A. sorri como se por esse gesto acendesse uma luz. Está cansada das palavras, da repetição que implicam. Por isso as escreve como quem tece fios idênticos aos que ajudaram os heróis antigos a sair dos labirintos. Um fio de palavras.
Ninguém vai mudar a água às flores, pensa. Ninguém muda a água a labirintos. E aflige-se .
(para a minha mãe)

20120405

um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos



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Ah, mas tem aqui umas lindas flores que lhe deixou a esposa, disse a rapariga.
C suspira como se esse gesto apagasse a luz. As palavras chegam ao fim, quer dizer, deixam de se ouvir. Na realidade elas continuam dentro de si com os seus pequenos ecos que o impedem de dormir.
Um fio de palavras, ou um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos, não mais do que isso.
(para o meu pai)

20120403

Melancolia





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Quem nasce numa cidade portuária nunca chega verdadeiramente a sair dela. Transporta-a dentro de si como um nómada o deserto ou um náufrago o ultimo cigarro.
A sirene de um barco contém em si toda a melancolia do mundo, porque os grandes navios não chegam, apenas partem.
Aconteceu-me numa cidade estrangeira  ouvir esse som carregado de bruma no meio do intenso movimento dos carros e do ininterrupto ruído de fundo. Assim que me foi possível procurei o porto como quem procura droga, ou um bálsamo.
Esse bálsamo é triste e calmo. Uma mistura de melancolia e simultânea vontade de partir e de ficar. 

20120324

Uma ferida de luz




Parou e olhou para a luz, para o rendilhado que esta tecia no chão, na ferida deixada na árvore. Uma ferida de luz, disse. A luz pode ferir. Como o silêncio um pouco hostil dos sítios que de repente se tornam outros. Ou porque crescemos. Ou porque ainda não crescemos. Ou por qualquer outro motivo.

20120303

Atlas




“ A trezentos ou quatrocentos metros da pirâmide, baixei-me, peguei num punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz discreta: Estou a transformar o Sahara. O facto era mínimo mas na sua banalidade as minhas palavras eram exactas e pensei que tinha sido precisa toda uma vida para as poder pronunciar. A recordação deste instante é uma das mais significativas da minha estada no Egipto.”

J.L.Borges, «Atlas»