20120405

um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos



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Ah, mas tem aqui umas lindas flores que lhe deixou a esposa, disse a rapariga.
C suspira como se esse gesto apagasse a luz. As palavras chegam ao fim, quer dizer, deixam de se ouvir. Na realidade elas continuam dentro de si com os seus pequenos ecos que o impedem de dormir.
Um fio de palavras, ou um veio de pequenos sons cada vez mais longínquos, não mais do que isso.
(para o meu pai)

20120403

Melancolia





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Quem nasce numa cidade portuária nunca chega verdadeiramente a sair dela. Transporta-a dentro de si como um nómada o deserto ou um náufrago o ultimo cigarro.
A sirene de um barco contém em si toda a melancolia do mundo, porque os grandes navios não chegam, apenas partem.
Aconteceu-me numa cidade estrangeira  ouvir esse som carregado de bruma no meio do intenso movimento dos carros e do ininterrupto ruído de fundo. Assim que me foi possível procurei o porto como quem procura droga, ou um bálsamo.
Esse bálsamo é triste e calmo. Uma mistura de melancolia e simultânea vontade de partir e de ficar. 

20120324

Uma ferida de luz




Parou e olhou para a luz, para o rendilhado que esta tecia no chão, na ferida deixada na árvore. Uma ferida de luz, disse. A luz pode ferir. Como o silêncio um pouco hostil dos sítios que de repente se tornam outros. Ou porque crescemos. Ou porque ainda não crescemos. Ou por qualquer outro motivo.

20120303

Atlas




“ A trezentos ou quatrocentos metros da pirâmide, baixei-me, peguei num punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz discreta: Estou a transformar o Sahara. O facto era mínimo mas na sua banalidade as minhas palavras eram exactas e pensei que tinha sido precisa toda uma vida para as poder pronunciar. A recordação deste instante é uma das mais significativas da minha estada no Egipto.”

J.L.Borges, «Atlas»

20120219