20110924

"Os cavalos de Tarquínia"







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Pouco antes de o meu filho João nascer, decidiu-se que o sítio mais adequado para ficar em estado de espera seria no Luso, e assim sucedeu. Instalámo-nos no Luso durante meio verão e só saía do quarto do hotel para ir a Coimbra comprar livros da M. Duras. Voltava e lia-os. Em especial “O marinheiro de Gibraltar” e “Os cavalos de Tarquínia”, não me recordo do terceiro porque não deve ter corrido bem a leitura.
Saíamos do Luso, íamos a Coimbra comprar livros, voltávamos e liamo-los. Nunca mais voltei a estar grávido num verão. Nem a ter vontade de usar roupa tão clara, reparo agora olhando para as fotografias.

20110919

Apenas tenho procurado registar isso numa imagem

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A ideia da série fotográfica “narrativas abertas” nasceu de uma visão. Passo a explicar.
Há uns dois anos, no Alentejo, à noite, para aí umas nove e meia da noite, fui dar uma volta a pé por causa do calor. De repente, numa esquina, inesperadamente uma vez que não havia ninguém na rua, aparece-me um cachorro novinho a contorná-la a grande velocidade, derrapando antes de seguir em frente. Seguiu-se um grande silêncio e eis que exactamente do mesmo sítio onde tinha ficado especado de surpresa, me aparece uma menina dos seus sete anos a correr atrás do bicho mas sem o chamar. De repente a menina pára, ou trava, no caso trava só para me dizer boa noite com a voz mais angélica e cristalina que se possa imaginar e desaparece na esquina seguinte seguindo o animal.
Já me têm dito que a dita série é das coisas mais esotéricas que tenho feito. Só conto este episódio sem nenhuma vontade de o complicar porque foi exactamente assim que se passou.
Os intervalos entre os sons, os passos, a sua ausência, numa pontuação extraordinária nunca mais me saíram da cabeça. Apenas tenho procurado registar isso numa imagem.

20110915

Títulos extraordinários a propósito de "A Ronda da Noite" e um beijo enorme para a Lígia

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Jantar num restaurante no Alentejo do qual já quase toda a gente saiu. O empregado vai baixando as luzes. Só já faltam duas mesas. Uma delas é a da frente que tinha uma indicação de reserva para a qual ninguém veio. A outra, cheia de copos, é a minha. Pago a conta e fico perto de vinte anos a pensar num bilhete deixado a propósito disso e a gozar comigo: “É a Ronda da Noite. Se fosse Rembrandt já não saia daqui” . Reflicto igualmente no facto de ter voltado e feito uma fotografia que pouco mudou em relação a esse dia.
O que se segue são três títulos imaginários e provavelmente muito densos a propósito dessa fotografia, da música de Rodrigo Leão em geral e da certeza que uma das pessoas mais elegantes que conheço a todos os níveis é uma miúda mais ou menos da minha idade que se chama Lígia Penim.
1
Ou quando te sentas e não dormes há quase dois dias. Podes escolher todos os motivos menos insónias porque ambos sabemos que não é isso.
2
Ou estabeleces uma linha para o silêncio a partir da qual ninguém entra e sabes que a ausência de ruído é uma coisa que só existe dentro de ti.
3
Ou um frio imenso que se põe à medida da noite e continuas a andar porque não és capaz de fazer o contrário disso. Sabes como é que costumam acabar estas histórias? Como quando se aluga um carro e se chega ao lado de lá depois de se ter atravessado os Estados Unidos.Com amigos.

20110914

Se nunca experimentaste como é que queres que te explique?

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E agora como é que te explico isto...de gostar de coisas fortíssimas e concentradas em tudo menos nos sumos. Odeio sumos fortes e concentrados.
Preciso de tardes de amor tão fortes... estiveste a comer mexilhões à espanhola e depois sais e dás contigo na costa da Caparica. E gostas. Gostas da costa da Caparica e das suas ondas estupidamente indomáveis. Quando pensas não trocava esta cena pela Riviera ou são três horas da tarde e estão um montão de graus e saíste à rua no Alentejo, quando pões os óculos escuros porque estavas quase a ficar cega do branco e do calor e te sentes no paraíso...é isso. Se nunca experimentaste nenhuma das duas coisas como é que queres que te explique?

20110819

Errâncias

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Por uma natural inclinação de feitio próxima da melancolia ou da própria tendência das coisas para o desaparecimento, fixei-as desde que me lembro dentro de mim. É por isso que às vezes pareço pisar um mapa transparente, como quem segue um caminho feito de geografias secretas, errâncias invisíveis. Na realidade conheço na perfeição esses trilhos armadilhados de sardas e verões antigos. Guio-me pelos sulcos provocados pelo amor ou pela tristeza da sua partida. Curiosamente quer uns quer outros levam-me de volta ao mesmo sítio, talvez com maior exactidão os segundos. Acho que isso provavelmente se deve ao facto de os homens nunca deixarem de ser rapazes. Gosto de acreditar nisso. Apazigua-me.