20110819

Errâncias

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Por uma natural inclinação de feitio próxima da melancolia ou da própria tendência das coisas para o desaparecimento, fixei-as desde que me lembro dentro de mim. É por isso que às vezes pareço pisar um mapa transparente, como quem segue um caminho feito de geografias secretas, errâncias invisíveis. Na realidade conheço na perfeição esses trilhos armadilhados de sardas e verões antigos. Guio-me pelos sulcos provocados pelo amor ou pela tristeza da sua partida. Curiosamente quer uns quer outros levam-me de volta ao mesmo sítio, talvez com maior exactidão os segundos. Acho que isso provavelmente se deve ao facto de os homens nunca deixarem de ser rapazes. Gosto de acreditar nisso. Apazigua-me.



20110802

Planos barrocos


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Paro. Se paro nada mais se ouve. Ando e paro. Paro. Só para ter esse prazer. Fecho os olhos, imóvel, envolto na completa ausência de som. Escolho uma fotografia da qual partiram todos depois de um barulho intenso.
Procuro Arcangelo Corelli e ouço-o através de duas colunas manhosas que o fazem sair como se quisesse escapar-se. Desta vez vou deixar que o faça. E vou com ele.

20110727

e estivesses sentado numa sala em vez de uma praia, na biblioteca, pode ser na biblioteca.



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Há uma outra forma que é tentar ouvir cada vez mais ao longe, como por entre camadas sobrepostas de cortinas, ou de histórias que leste, ou numa praia e a água subisse sem ouvires os avisos, e houvesse uma luz de farol que entrasse pela janela e varresse a cena, e te distraísse a cada passagem circular como se te fosses lembrar de qualquer coisa, e estivesses sentado numa sala em vez de uma praia, na biblioteca, pode ser na biblioteca para que uma voz te diga parece incrível, há mais de meia hora que já está toda a gente à tua espera à mesa.

20110718

Era Agosto e não havia mais ninguém na praia

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Uma vez, na costa vicentina, quando falar desse sítio era como estar a falar de estaleiros de reparação de barcos para quem não soubesse onde isso ficava, vi uma coisa vir com as marés, um pequeno ponto negro que se aproximava. Nessa altura tanto fazia que viesse ou que se afastasse …amávamo-nos. Depois viemos a verificar que era uma vaca virada de pernas ao alto e a boiar, que deu à costa sem pressa nem classe, uma das patas parecia um mastro, pelo que a confundimos com um barco e começámos a imaginar náufragos e a ficar arrepiados. Era Agosto e não havia mais ninguém na praia. E agora que morreste, Isabel, e sinto sempre uma tristeza infinda, sabes só o que queria? Que fosse Agosto e não houvesse mais ninguém na praia. Não me interessava se dessem ou não à costa uma ou cem vacas a boiar. Apenas queria que não houvesse mais ninguém na praia. Cinco minutos às três horas da tarde sem ninguém na praia. Depois podiam voltar. As vacas, os banhistas, os nadadores salvadores, o pó que fazem.

(para a Manuela Caldeira, que sabe ainda, talvez, como se chega até lá.)