20110819

Errâncias

_______________
Por uma natural inclinação de feitio próxima da melancolia ou da própria tendência das coisas para o desaparecimento, fixei-as desde que me lembro dentro de mim. É por isso que às vezes pareço pisar um mapa transparente, como quem segue um caminho feito de geografias secretas, errâncias invisíveis. Na realidade conheço na perfeição esses trilhos armadilhados de sardas e verões antigos. Guio-me pelos sulcos provocados pelo amor ou pela tristeza da sua partida. Curiosamente quer uns quer outros levam-me de volta ao mesmo sítio, talvez com maior exactidão os segundos. Acho que isso provavelmente se deve ao facto de os homens nunca deixarem de ser rapazes. Gosto de acreditar nisso. Apazigua-me.



20110802

Planos barrocos


______________

Paro. Se paro nada mais se ouve. Ando e paro. Paro. Só para ter esse prazer. Fecho os olhos, imóvel, envolto na completa ausência de som. Escolho uma fotografia da qual partiram todos depois de um barulho intenso.
Procuro Arcangelo Corelli e ouço-o através de duas colunas manhosas que o fazem sair como se quisesse escapar-se. Desta vez vou deixar que o faça. E vou com ele.

20110727

e estivesses sentado numa sala em vez de uma praia, na biblioteca, pode ser na biblioteca.



____________________

Há uma outra forma que é tentar ouvir cada vez mais ao longe, como por entre camadas sobrepostas de cortinas, ou de histórias que leste, ou numa praia e a água subisse sem ouvires os avisos, e houvesse uma luz de farol que entrasse pela janela e varresse a cena, e te distraísse a cada passagem circular como se te fosses lembrar de qualquer coisa, e estivesses sentado numa sala em vez de uma praia, na biblioteca, pode ser na biblioteca para que uma voz te diga parece incrível, há mais de meia hora que já está toda a gente à tua espera à mesa.

20110718

Era Agosto e não havia mais ninguém na praia

_______________

Uma vez, na costa vicentina, quando falar desse sítio era como estar a falar de estaleiros de reparação de barcos para quem não soubesse onde isso ficava, vi uma coisa vir com as marés, um pequeno ponto negro que se aproximava. Nessa altura tanto fazia que viesse ou que se afastasse …amávamo-nos. Depois viemos a verificar que era uma vaca virada de pernas ao alto e a boiar, que deu à costa sem pressa nem classe, uma das patas parecia um mastro, pelo que a confundimos com um barco e começámos a imaginar náufragos e a ficar arrepiados. Era Agosto e não havia mais ninguém na praia. E agora que morreste, Isabel, e sinto sempre uma tristeza infinda, sabes só o que queria? Que fosse Agosto e não houvesse mais ninguém na praia. Não me interessava se dessem ou não à costa uma ou cem vacas a boiar. Apenas queria que não houvesse mais ninguém na praia. Cinco minutos às três horas da tarde sem ninguém na praia. Depois podiam voltar. As vacas, os banhistas, os nadadores salvadores, o pó que fazem.

(para a Manuela Caldeira, que sabe ainda, talvez, como se chega até lá.)

20110717

Uma avaria irreparável

_______________

Até já os textos prefiro errantes e pequenos. Sou doido por textos errantes. Leio-os melhor, tenho mais hipóteses de saber do que falam. A poesia acalma-me por causa disso. Um som que vem de dentro. “Para ti a poesia deve ser acústica”, disseste-me no outro dia. Hoje tenho uma pena imensa de não te ter respondido.
Dos outros sei muito pouco, quase nada. Há muito tempo que deixei de ouvi-los ao fim da segunda ou terceira frase. Fico a ver-lhes as coreografias e as poses como se acontecesse uma qualquer avaria no sistema sonoro. Uma avaria irreparável. Refiro-me à minha, como é claro.

20110715

Exactamente por nada, e é-me impossível ser mais exacto.


_____________

Eu tenho um problema, é que tenho cinquenta e dois anos e não tenho pressa.
Gostava mais de libertar coisas do que aprisioná-las. Oiço música barroca como quem come hóstias. As palavras já não me assustam e para dizer a verdade nem sei se verdadeiramente me interessam.
Conheço um dos alfarrábios mais loucos do mundo e no outro dia passei o tempo todo a tentar seduzi-lo com acepipes e vinhos mais ou menos raros para o convencer a levar-me aquilo que ele considera os meus crimes e eu acho coisas cheias de pó e infinitamente chatas.
À excepção de meia dúzia de parágrafos de Borges, tês linhas de Sophia sobre o mar, trocava tudo por nada. Exactamente por nada, e é-me impossível ser mais exacto.

20110714

Crónicas dos dias perfeitos com portáteis

____________________

Sempre escrevi com lápis ou canetas. Estas teclas pretas encantam-me. Martelam-me as palavras por causa da rapidez. Dominando mesmo que com algum desprezo inicial a coisa, elas começam a aparecer, uma a uma chegam, como as vagas, não me chateiam mais do que os pés de repente molhados pela subida da água na areia ou por me chamares.
Outra grande vantagem é andar com isto de um lado para o outro a ouvir música barroca, neste caso por causa da gravação e dos altifalantes é Chopin que sofre. Claro que gravo os nocturnos em todo o lado, como se escreve o nome dos amores nas árvores.
E agora paro de repente e fico a olhar para o que escrevi. E com um esgar meio parvo penso – perfeito. Mais uma narrativa aberta. Depois de um dia de merda.E ainda tenho energia para pensar no título - Crónicas dos dias perfeitos com portáteis.

20110705

Se pudesse entrava dentro de uma dessas tardes espanholas


_______
Gosto de cidades abandonadas à beira dos desertos, por onde passaram o vento e as areias. Do mesmo modo gosto de praças vazias como nas pinturas de G. de Chirico. Se pudesse entrava dentro de uma dessas tardes espanholas e aproveitando-me do calor e da lassidão da hora da sesta desaparecia.
Desaparecer é uma actividade a que me dedico com esmero embora sem qualquer método. Isso explicará em parte o meu insucesso.

20110630

Uma geografia secreta de errâncias e de declives


___________________                                     clicar nas digitalizações para ampliar



Como há dezanove anos, o sul continua-me uma paisagem interior, uma geografia secreta de errâncias e de declives.
(esta folha, chamemos-lhe assim, já praticamente não se encontra e foi editada graças aos sonhos do poeta e livreiro João Raposo Nunes.  Contra ventos, a maior parte de areia, continua com a sua livraria UNI VERSO aberta em Setúbal. Por puro amor, como já não se usa.)