20110801
20110727
e estivesses sentado numa sala em vez de uma praia, na biblioteca, pode ser na biblioteca.
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Há uma outra forma que é tentar ouvir cada vez mais ao longe, como por entre camadas sobrepostas de cortinas, ou de histórias que leste, ou numa praia e a água subisse sem ouvires os avisos, e houvesse uma luz de farol que entrasse pela janela e varresse a cena, e te distraísse a cada passagem circular como se te fosses lembrar de qualquer coisa, e estivesses sentado numa sala em vez de uma praia, na biblioteca, pode ser na biblioteca para que uma voz te diga parece incrível, há mais de meia hora que já está toda a gente à tua espera à mesa.
20110724
20110719
20110718
Era Agosto e não havia mais ninguém na praia
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Uma vez, na costa vicentina, quando falar desse sítio era como estar a falar de estaleiros de reparação de barcos para quem não soubesse onde isso ficava, vi uma coisa vir com as marés, um pequeno ponto negro que se aproximava. Nessa altura tanto fazia que viesse ou que se afastasse …amávamo-nos. Depois viemos a verificar que era uma vaca virada de pernas ao alto e a boiar, que deu à costa sem pressa nem classe, uma das patas parecia um mastro, pelo que a confundimos com um barco e começámos a imaginar náufragos e a ficar arrepiados. Era Agosto e não havia mais ninguém na praia. E agora que morreste, Isabel, e sinto sempre uma tristeza infinda, sabes só o que queria? Que fosse Agosto e não houvesse mais ninguém na praia. Não me interessava se dessem ou não à costa uma ou cem vacas a boiar. Apenas queria que não houvesse mais ninguém na praia. Cinco minutos às três horas da tarde sem ninguém na praia. Depois podiam voltar. As vacas, os banhistas, os nadadores salvadores, o pó que fazem.
(para a Manuela Caldeira, que sabe ainda, talvez, como se chega até lá.)
Uma vez, na costa vicentina, quando falar desse sítio era como estar a falar de estaleiros de reparação de barcos para quem não soubesse onde isso ficava, vi uma coisa vir com as marés, um pequeno ponto negro que se aproximava. Nessa altura tanto fazia que viesse ou que se afastasse …amávamo-nos. Depois viemos a verificar que era uma vaca virada de pernas ao alto e a boiar, que deu à costa sem pressa nem classe, uma das patas parecia um mastro, pelo que a confundimos com um barco e começámos a imaginar náufragos e a ficar arrepiados. Era Agosto e não havia mais ninguém na praia. E agora que morreste, Isabel, e sinto sempre uma tristeza infinda, sabes só o que queria? Que fosse Agosto e não houvesse mais ninguém na praia. Não me interessava se dessem ou não à costa uma ou cem vacas a boiar. Apenas queria que não houvesse mais ninguém na praia. Cinco minutos às três horas da tarde sem ninguém na praia. Depois podiam voltar. As vacas, os banhistas, os nadadores salvadores, o pó que fazem.
(para a Manuela Caldeira, que sabe ainda, talvez, como se chega até lá.)
20110717
Uma avaria irreparável
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Até já os textos prefiro errantes e pequenos. Sou doido por textos errantes. Leio-os melhor, tenho mais hipóteses de saber do que falam. A poesia acalma-me por causa disso. Um som que vem de dentro. “Para ti a poesia deve ser acústica”, disseste-me no outro dia. Hoje tenho uma pena imensa de não te ter respondido.
Dos outros sei muito pouco, quase nada. Há muito tempo que deixei de ouvi-los ao fim da segunda ou terceira frase. Fico a ver-lhes as coreografias e as poses como se acontecesse uma qualquer avaria no sistema sonoro. Uma avaria irreparável. Refiro-me à minha, como é claro.
Até já os textos prefiro errantes e pequenos. Sou doido por textos errantes. Leio-os melhor, tenho mais hipóteses de saber do que falam. A poesia acalma-me por causa disso. Um som que vem de dentro. “Para ti a poesia deve ser acústica”, disseste-me no outro dia. Hoje tenho uma pena imensa de não te ter respondido.
Dos outros sei muito pouco, quase nada. Há muito tempo que deixei de ouvi-los ao fim da segunda ou terceira frase. Fico a ver-lhes as coreografias e as poses como se acontecesse uma qualquer avaria no sistema sonoro. Uma avaria irreparável. Refiro-me à minha, como é claro.
20110715
Exactamente por nada, e é-me impossível ser mais exacto.
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Eu tenho um problema, é que tenho cinquenta e dois anos e não tenho pressa.
Gostava mais de libertar coisas do que aprisioná-las. Oiço música barroca como quem come hóstias. As palavras já não me assustam e para dizer a verdade nem sei se verdadeiramente me interessam.
Conheço um dos alfarrábios mais loucos do mundo e no outro dia passei o tempo todo a tentar seduzi-lo com acepipes e vinhos mais ou menos raros para o convencer a levar-me aquilo que ele considera os meus crimes e eu acho coisas cheias de pó e infinitamente chatas.
À excepção de meia dúzia de parágrafos de Borges, tês linhas de Sophia sobre o mar, trocava tudo por nada. Exactamente por nada, e é-me impossível ser mais exacto.
20110714
Crónicas dos dias perfeitos com portáteis
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Sempre escrevi com lápis ou canetas. Estas teclas pretas encantam-me. Martelam-me as palavras por causa da rapidez. Dominando mesmo que com algum desprezo inicial a coisa, elas começam a aparecer, uma a uma chegam, como as vagas, não me chateiam mais do que os pés de repente molhados pela subida da água na areia ou por me chamares.
Outra grande vantagem é andar com isto de um lado para o outro a ouvir música barroca, neste caso por causa da gravação e dos altifalantes é Chopin que sofre. Claro que gravo os nocturnos em todo o lado, como se escreve o nome dos amores nas árvores.
E agora paro de repente e fico a olhar para o que escrevi. E com um esgar meio parvo penso – perfeito. Mais uma narrativa aberta. Depois de um dia de merda.E ainda tenho energia para pensar no título - Crónicas dos dias perfeitos com portáteis.
Sempre escrevi com lápis ou canetas. Estas teclas pretas encantam-me. Martelam-me as palavras por causa da rapidez. Dominando mesmo que com algum desprezo inicial a coisa, elas começam a aparecer, uma a uma chegam, como as vagas, não me chateiam mais do que os pés de repente molhados pela subida da água na areia ou por me chamares.
Outra grande vantagem é andar com isto de um lado para o outro a ouvir música barroca, neste caso por causa da gravação e dos altifalantes é Chopin que sofre. Claro que gravo os nocturnos em todo o lado, como se escreve o nome dos amores nas árvores.
E agora paro de repente e fico a olhar para o que escrevi. E com um esgar meio parvo penso – perfeito. Mais uma narrativa aberta. Depois de um dia de merda.E ainda tenho energia para pensar no título - Crónicas dos dias perfeitos com portáteis.
20110712
20110708
20110707
20110705
Se pudesse entrava dentro de uma dessas tardes espanholas
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Gosto de cidades abandonadas à beira dos desertos, por onde passaram o vento e as areias. Do mesmo modo gosto de praças vazias como nas pinturas de G. de Chirico. Se pudesse entrava dentro de uma dessas tardes espanholas e aproveitando-me do calor e da lassidão da hora da sesta desaparecia.
Desaparecer é uma actividade a que me dedico com esmero embora sem qualquer método. Isso explicará em parte o meu insucesso.
20110701
20110630
Uma geografia secreta de errâncias e de declives
___________________ clicar nas digitalizações para ampliar
Como há dezanove anos, o sul continua-me uma paisagem interior, uma geografia secreta de errâncias e de declives.
(esta folha, chamemos-lhe assim, já praticamente não se encontra e foi editada graças aos sonhos do poeta e livreiro João Raposo Nunes. Contra ventos, a maior parte de areia, continua com a sua livraria UNI VERSO aberta em Setúbal. Por puro amor, como já não se usa.)
20110621
20110612
20110610
20110601
20110529
20110520
20110518
Cartas III
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Uma vez disseste-me que as minhas fotografias eram mais animais que humanas.
Devo ter dito -?????!!!!. Depois percebi que me falavas de um olhar de animal ferido. "Encostas-te às coisas, há sempre uma primeira coisa, um plano que funciona como uma seteira, um abrigo".
Sou preguiçoso, M. Tão preguiçoso que foste indo sem que desse por isso. E também tenho coisas de animal ferido. É natural que ao olhar se veja. Por outro lado também tenho boas notícias. Sabes que voltei a escrever cartas?
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