20110715

Exactamente por nada, e é-me impossível ser mais exacto.


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Eu tenho um problema, é que tenho cinquenta e dois anos e não tenho pressa.
Gostava mais de libertar coisas do que aprisioná-las. Oiço música barroca como quem come hóstias. As palavras já não me assustam e para dizer a verdade nem sei se verdadeiramente me interessam.
Conheço um dos alfarrábios mais loucos do mundo e no outro dia passei o tempo todo a tentar seduzi-lo com acepipes e vinhos mais ou menos raros para o convencer a levar-me aquilo que ele considera os meus crimes e eu acho coisas cheias de pó e infinitamente chatas.
À excepção de meia dúzia de parágrafos de Borges, tês linhas de Sophia sobre o mar, trocava tudo por nada. Exactamente por nada, e é-me impossível ser mais exacto.

20110714

Crónicas dos dias perfeitos com portáteis

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Sempre escrevi com lápis ou canetas. Estas teclas pretas encantam-me. Martelam-me as palavras por causa da rapidez. Dominando mesmo que com algum desprezo inicial a coisa, elas começam a aparecer, uma a uma chegam, como as vagas, não me chateiam mais do que os pés de repente molhados pela subida da água na areia ou por me chamares.
Outra grande vantagem é andar com isto de um lado para o outro a ouvir música barroca, neste caso por causa da gravação e dos altifalantes é Chopin que sofre. Claro que gravo os nocturnos em todo o lado, como se escreve o nome dos amores nas árvores.
E agora paro de repente e fico a olhar para o que escrevi. E com um esgar meio parvo penso – perfeito. Mais uma narrativa aberta. Depois de um dia de merda.E ainda tenho energia para pensar no título - Crónicas dos dias perfeitos com portáteis.

20110705

Se pudesse entrava dentro de uma dessas tardes espanholas


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Gosto de cidades abandonadas à beira dos desertos, por onde passaram o vento e as areias. Do mesmo modo gosto de praças vazias como nas pinturas de G. de Chirico. Se pudesse entrava dentro de uma dessas tardes espanholas e aproveitando-me do calor e da lassidão da hora da sesta desaparecia.
Desaparecer é uma actividade a que me dedico com esmero embora sem qualquer método. Isso explicará em parte o meu insucesso.

20110630

Uma geografia secreta de errâncias e de declives


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Como há dezanove anos, o sul continua-me uma paisagem interior, uma geografia secreta de errâncias e de declives.
(esta folha, chamemos-lhe assim, já praticamente não se encontra e foi editada graças aos sonhos do poeta e livreiro João Raposo Nunes.  Contra ventos, a maior parte de areia, continua com a sua livraria UNI VERSO aberta em Setúbal. Por puro amor, como já não se usa.)

20110518

Cartas III


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Uma vez disseste-me que as minhas fotografias eram mais animais que humanas.
Devo ter dito -?????!!!!. Depois percebi que me falavas de um olhar de animal ferido. "Encostas-te às coisas, há sempre uma primeira coisa, um plano que funciona como uma seteira, um abrigo".
Sou preguiçoso, M. Tão preguiçoso que foste indo sem que desse por isso. E também tenho coisas de animal ferido. É natural que ao olhar se veja. Por outro lado também tenho boas notícias. Sabes que voltei a escrever cartas?

20110516

Alentejo 16, quase 17

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Olho para o branco e é como um estampido. O som de um disparo mas como se durasse uma tarde e um dia. Treinos para o calor, dizes-me, e não sorris. É muito provável que tenhamos pensado ao mesmo tempo naquela vez em que jurámos, para além do amor, concentração absoluta. Tratava-se de surpreender o momento exacto em que o muro de som das cigarras se cala. Descobrir se isso tinha a ver com o fresco ou com o escuro ou com a distracção. Descobri que tem a ver com o esquecimento porque nunca conseguimos ouvir o exacto momento em que termina e com a distância nunca mais voltámos a pensar nisso.

(Para a margaridaa do gnomon.nobolso.net , a quem prometi a mim mesmo oferecer o próximo texto que escrevesse, e este só tem minutos.Para a Anabela Amaral também,por gostar do que escrevo. A fotografia é um pouco mais antiga, mas não muito.)