20110518

Cartas III


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Uma vez disseste-me que as minhas fotografias eram mais animais que humanas.
Devo ter dito -?????!!!!. Depois percebi que me falavas de um olhar de animal ferido. "Encostas-te às coisas, há sempre uma primeira coisa, um plano que funciona como uma seteira, um abrigo".
Sou preguiçoso, M. Tão preguiçoso que foste indo sem que desse por isso. E também tenho coisas de animal ferido. É natural que ao olhar se veja. Por outro lado também tenho boas notícias. Sabes que voltei a escrever cartas?

20110516

Alentejo 16, quase 17

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Olho para o branco e é como um estampido. O som de um disparo mas como se durasse uma tarde e um dia. Treinos para o calor, dizes-me, e não sorris. É muito provável que tenhamos pensado ao mesmo tempo naquela vez em que jurámos, para além do amor, concentração absoluta. Tratava-se de surpreender o momento exacto em que o muro de som das cigarras se cala. Descobrir se isso tinha a ver com o fresco ou com o escuro ou com a distracção. Descobri que tem a ver com o esquecimento porque nunca conseguimos ouvir o exacto momento em que termina e com a distância nunca mais voltámos a pensar nisso.

(Para a margaridaa do gnomon.nobolso.net , a quem prometi a mim mesmo oferecer o próximo texto que escrevesse, e este só tem minutos.Para a Anabela Amaral também,por gostar do que escrevo. A fotografia é um pouco mais antiga, mas não muito.)