20110122

Aproveitar a água


Não faço a mínima ideia onde é que foste buscar isso de eu ser fotógrafo. Sabes que sou uma espécie marginal ao sucesso. Construo monumentos altíssimos só com escadas para poder chorar lá de cima sem que se note. E aproveito a água. Escrevo sobre maresias e coisas assim que vão e vêm e ás vezes não voltam. A pintura interessa-me. Em tempos pratiquei-a com relativo sucesso. O mesmo sucedeu com a escultura, a arte do galanteio, a decoração de interiores, a culinária, o excesso. Agora deixei de fumar. Claro que aconselho toda a gente a deixar de fumar. Em media dura-se mais cinco anos. Com os cuidados certos são apenas dez quilos de banha que depois se reduzem para sete desde que também passe a vontade do resto.

20110121










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Esta postagem nasce de uma ferida. Não sei quando irá sarar.
Recoloco aqui um texto não muito antigo e dedico-o a uma das pessoas que o habita. Chama-se Isabel, foi um dos grandes amores da minha vida há muito tempo e deixou-nos terça-feira aos 52 anos por uma tristeza que lhe crescia sem que ninguém a conseguisse parar.
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Todas as raparigas que amei nunca mais as deixei partir da minha vida. Algumas nem devem ter reparado que eu existia.
São todas jovens espigas de trigo à maneira helénica. Tenho por hábito fechar os olhos de tempos a tempos e vê-las. Sem elas nunca teria crescido. Devem ter envelhecido como eu. Sento-me à sombra de um templo esquecido pelas multidões e sorrio. Sinto-me tão bem aqui, penso. Acho que dentro de mim elas se transformaram em colunas gregas.