20101123

Haiku II



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“No alto da torre: para a despedida,
Rio e planície no crepúsculo se perdem
Voltam as aves: pôr-do-sol,
O homem caminha, cada vez mais longe.”

Wang Wei (séc. VIII)

20101118

As clepsidras


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Durante bastante tempo tomei a clepsidra por uma planta, naturalmente sensível, como o próprio nome indica.
O seu espaço seria o dos velhos solares, uma qualquer escada de pedra atapetada de musgo, talvez secundária, nas traseiras de um pátio.
As clepsidras dar-se-iam em vasos não muito grandes, ou em jarrões abobadados como as ânforas, mas de tamanho menor.
Como não precisam que lhes mudem regularmente a terra, os vasos ligam-se ao sítio onde estão colocados como se desde sempre lá estivessem, só pudesse ser esse o seu lugar (…).
Descobri há algum tempo que a clepsidra é um relógio antigo de água. Perturbou-me apenas ser tão flagrante a coincidência.
de “Aparecimentos”,1989

20101112

Dos sonhos,talvez.


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Em miúdo acreditava que estes mármores, quando molhados, se abriam para as praias que lhes deram origem. Como não me deixavam sair quando chovia nas quantidades que eu considerava necessárias, demorei ainda algum tempo a apanhar o primeiro desgosto.
O mecanismo era mais ou menos o seguinte: nas noites de temporal a água funcionava como uma espécie de cortina ou escada, uma escadaria, para ser mais exacto. O caso é que essa entrada dava acesso a uma casa antiga que visitei recorrentemente em sonhos entre os meus sete e os trezes anos. Disso tudo sobrou uma construção que não existe em mais sítio nenhum, uma praia cujas rochas mudaram pouco desde a infância e meia dúzia de colunas que me continuam a fazer sonhar quando as olho. Deixo aqui uma fotografia destas últimas na esperança que isso se pegue.

20101105

Evasivas .6.


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Um som para esta hora da tarde, como o das cigarras para o calor ou o estalar da lenha para o frio. Uma hora exacta ou um fio de sombra, como se existisse uma imagem para isso.
Esta luz na fronteira exacta do excesso, como um fio-de-prumo sobre um precipício.

20100925

Vanitas, vanitatum et omnia vanitas (*)

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Humedecemos o pó e o barro e misturámo-los com as pedras com que erguemos construções dedicadas aos deuses, à vaidade, ao governo dos Homens, à guerra.
Construímos muros tão altos que não nos conseguimos deitar na sombra que as árvores aí projectam.
Se o nosso labor suspendemos, pedras e barro e pó regressam como uma escrita invisível àquilo que eram. Tudo volta a ser seiva, seixo, fóssil, erva.

(*)- "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade". Inscrição no portal de uma gafaria medieval em Setúbal.





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