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20101109
20101105
Evasivas .6.
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Um som para esta hora da tarde, como o das cigarras para o calor ou o estalar da lenha para o frio. Uma hora exacta ou um fio de sombra, como se existisse uma imagem para isso.
Esta luz na fronteira exacta do excesso, como um fio-de-prumo sobre um precipício.
20101102
20101029
20101026
20101022
20101019
20101016
20101012
20101006
20101004
20100930
20100925
Vanitas, vanitatum et omnia vanitas (*)
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Humedecemos o pó e o barro e misturámo-los com as pedras com que erguemos construções dedicadas aos deuses, à vaidade, ao governo dos Homens, à guerra.
Construímos muros tão altos que não nos conseguimos deitar na sombra que as árvores aí projectam.
Se o nosso labor suspendemos, pedras e barro e pó regressam como uma escrita invisível àquilo que eram. Tudo volta a ser seiva, seixo, fóssil, erva.
(*)- "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade". Inscrição no portal de uma gafaria medieval em Setúbal.
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20100923
20100919
Ninfolepsias
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Uma claridade que das ruínas emana, um casulo de tempo e de luz. Essa luz como um véu, talvez centenas de véus, para ser mais preciso. Cada um sobre o outro sem se tocarem nunca.
Esse nimbo de idades protege-as, ao contrário do que possa parecer à primeira vista. É essa sobreposição de tempo que origina esse casulo a que me refiro.
O que o olhar vê é sempre outra coisa que não está ali, embora exista. É essa existência nimbada que as caracteriza. Esta circunstância parece causar uma espécie de ninfolepsia, palavra estranha que se refere frequentemente àqueles que desejam a solidão dos bosques embora, e a meu ver acertadamente, segundo os antigos, se relacione com aquilo que supunham ser o delírio próprio do homem que tivesse visto uma ninfa. As ruínas, algumas ruínas, são-no precisamente em certa medida.
20100917
20100914
20100911
É na mais antiga dessas sombras que moras
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…aí encontras uma sombra. Claro que prefiro que seja uma sombra numas ruínas antigas, mas na realidade pode ser uma sombra qualquer num dia extraordinariamente quente. Sabes como se entra dentro de uma sombra? É com o corpo todo. Numa primeira fase pode dispensar-se os olhos, só empatam. Entra-se dentro de uma sombra por exemplo pela temperatura ou pelo cheiro, fechas os olhos e entras. Quando deres por ti estás a resvalar de sombra em sombra por todas as sombras onde estiveste. É na mais antiga dessas sombras que moras, não na casa onde estás a ler isto.
20100910
20100907
20100903
Como quem fotografa a parte invisível das conchas
fotografia de Alberto Lopes
Há uma altura precisa, mais pequena do que um momento, em que cedes à vertigem, ou és tu a própria vertigem de um fluxo que te suga e leva. É por isso que deixas de ouvir e, mais estranho ainda tratando-se de uma fotografia, de ver. É nesse momento preciso que a imagem que depois vemos nasce. Claro que Alberto Lopes fotografa catedrais como quem fotografa a parte invisível das conchas, mas o que ele na verdade regista não são apenas esses edifícios já de si notáveis mas sobretudo essa perda de gravidade que sente no seu seio como quem segue um veio para dentro de si próprio.
Há uma altura precisa, mais pequena do que um momento, em que cedes à vertigem, ou és tu a própria vertigem de um fluxo que te suga e leva. É por isso que deixas de ouvir e, mais estranho ainda tratando-se de uma fotografia, de ver. É nesse momento preciso que a imagem que depois vemos nasce. Claro que Alberto Lopes fotografa catedrais como quem fotografa a parte invisível das conchas, mas o que ele na verdade regista não são apenas esses edifícios já de si notáveis mas sobretudo essa perda de gravidade que sente no seu seio como quem segue um veio para dentro de si próprio.
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