20100923
20100919
Ninfolepsias
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Uma claridade que das ruínas emana, um casulo de tempo e de luz. Essa luz como um véu, talvez centenas de véus, para ser mais preciso. Cada um sobre o outro sem se tocarem nunca.
Esse nimbo de idades protege-as, ao contrário do que possa parecer à primeira vista. É essa sobreposição de tempo que origina esse casulo a que me refiro.
O que o olhar vê é sempre outra coisa que não está ali, embora exista. É essa existência nimbada que as caracteriza. Esta circunstância parece causar uma espécie de ninfolepsia, palavra estranha que se refere frequentemente àqueles que desejam a solidão dos bosques embora, e a meu ver acertadamente, segundo os antigos, se relacione com aquilo que supunham ser o delírio próprio do homem que tivesse visto uma ninfa. As ruínas, algumas ruínas, são-no precisamente em certa medida.
20100917
20100914
20100911
É na mais antiga dessas sombras que moras
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…aí encontras uma sombra. Claro que prefiro que seja uma sombra numas ruínas antigas, mas na realidade pode ser uma sombra qualquer num dia extraordinariamente quente. Sabes como se entra dentro de uma sombra? É com o corpo todo. Numa primeira fase pode dispensar-se os olhos, só empatam. Entra-se dentro de uma sombra por exemplo pela temperatura ou pelo cheiro, fechas os olhos e entras. Quando deres por ti estás a resvalar de sombra em sombra por todas as sombras onde estiveste. É na mais antiga dessas sombras que moras, não na casa onde estás a ler isto.
20100910
20100907
20100903
Como quem fotografa a parte invisível das conchas
fotografia de Alberto Lopes
Há uma altura precisa, mais pequena do que um momento, em que cedes à vertigem, ou és tu a própria vertigem de um fluxo que te suga e leva. É por isso que deixas de ouvir e, mais estranho ainda tratando-se de uma fotografia, de ver. É nesse momento preciso que a imagem que depois vemos nasce. Claro que Alberto Lopes fotografa catedrais como quem fotografa a parte invisível das conchas, mas o que ele na verdade regista não são apenas esses edifícios já de si notáveis mas sobretudo essa perda de gravidade que sente no seu seio como quem segue um veio para dentro de si próprio.
Há uma altura precisa, mais pequena do que um momento, em que cedes à vertigem, ou és tu a própria vertigem de um fluxo que te suga e leva. É por isso que deixas de ouvir e, mais estranho ainda tratando-se de uma fotografia, de ver. É nesse momento preciso que a imagem que depois vemos nasce. Claro que Alberto Lopes fotografa catedrais como quem fotografa a parte invisível das conchas, mas o que ele na verdade regista não são apenas esses edifícios já de si notáveis mas sobretudo essa perda de gravidade que sente no seu seio como quem segue um veio para dentro de si próprio.
20100902
20100829
20100827
Maresias .14
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“Se fechares os olhos percebes como não é preciso tropeçar nas coisas para saberes que elas existem. O seu eco propaga-se pelo tempo como campainhas chinesas por entre o nevoeiro, provavelmente viajantes ou barcos(…). Seu brilho tocar-te-á, uma suave queimadura, como os pés enterrando-se na areia, os pés enterrando-se na areia às três horas da tarde antes que consigas alcançar a água.”
de “Aparecimentos”, página 18. Podia ser, não podia? Mas aprendi as tuas subtilezas. Cinco minutos depois do tempo …. Atrasaste-te cinco minutos e nestes jogos que adoras nunca te atrasas…
É o quê?
Maresias .13
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Apanhei-te. Era na suspensão desta imagem que querias ficar. A casa das marés. É a casa das marés de que me falavas, não é?!?
Lembro-me de partes do texto: “Com o calor a única hipótese são os búzios, seus sons marítimos (…) não te esqueças de levar livros e presentes para ofereceres às deusas da fecundidade.” …
Tinhas que encontrar uma coisa sem a qual não podias voltar. E eram palavras, acho que eram palavras, na altura ainda acreditavas no seu poder mágico…
Mas agora acho que é uma imagem. Do que conheço de ti vais encontrar uma imagem que dirá precisamente “tenho que encontrar uma coisa sem a qual não posso voltar”. É por isso que de vez em quando as apagas e recomeças de novo, não é?
Não é preciso responderes-me. Vamos fazer um jogo. Dentro de meia hora pões a tua imagem. Eu ainda as sei ler, lembras-te?
20100826
20100824
20100822
20100817
Ruinologias
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O que me fascina nas ruínas é precisamente o facto de serem ruínas, e não o invocarem com maior ou menor legibilidade uma determinada época. Quando muito, à reconstituição arqueológica prefiro a reconstituição pelo sonho, essa doce neblina. O passado, “cientificamente” reposto, enfada-me por vezes tanto como o presente, ou mesmo o futuro.
J. Ruskin, em 1849, leva o seu entusiasmo estético pela ruína ao ponto de recordar aos arquitectos que pensem os materiais, o desenho e a estrutura em função do aspecto que o edifício deverá ter quando em ruínas. A precariedade de certas estruturas e materiais (tijolo e pedra calcária em vez de granito, diz) abrevia a espera. Por isso as recomenda. É já a ruínologia contra a qual, Delille, num poema de 1782, se insurgiu a favor da “inimitável marca do tempo”, que aliás tanto o fascina.
Prefiro naturalmente o gosto Romântico à pedagogia. Em 1787, no decorrer de uma viagem ao Egipto e à Síria, Constantin-François Volney congratula-se com a ruína do seu sentido político. As ruínas dos castelos e dos templos extasiam-no. Ela é a prova insofismável da queda do poder opressivo. A ruína acede, curiosa inversão de perspectiva, ao orgulho revolucionário. Desagradável quanto inocente raciocínio.
O restauro, como atitude, que à primeira vista se lhe parece opor, não me merece maior simpatia. O meu fascínio pela ruína é estético, não é histórico. Qualquer reconstituição é, a esse nível, uma perturbação inútil introduzida nesse lento labor do tempo que aliás recomeçará, com a paciência de um monge copista. Não se deve alterar, sob nenhum pretexto, o conteúdo dos manuscritos.
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20100816
20100809
20100808
20100806
Do calor
Uma sombra. 38º sob essa concha. 42 fora dela. O calor protege-te. Ninguém no seu perfeito juízo para aqui vem livremente. Tanto te faz que à noite a temperatura desça um pouco e que seja esse o principal assunto das conversas. Interessa-te apenas as três horas da tarde. Mergulhar nessa ausência momentânea, nessa espécie de vertigem que a suspensão da actividade humana sempre te provoca.
(Alentejo-Agosto)
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