20100530

As casas


Gosto deste som de sombra, ouvido do lado de dentro. Como um búzio concebido para as longas tardes de calor ou os dias duríssimos de Inverno.
Não te sei explicar esse som. São precisas várias coisas. Uma porta de madeira, um corredor , ao fim desse corredor um pequeno pátio. As portas têm de ter vidros coloridos antigos, martelados, com tons quentes. Ouves o som e não te mexes. Fica preso na tarde como uma lagartixa ao sol, ou o sino de um mosteiro tibetano. A casa torna-se como que abandonada contigo lá dentro. Quando vais ver quem bateu à porta já não há ninguém. É assim. Com pequenas variações.

20100523

Maresias




Gostava de envelhecer por dentro como uma porta de madeira virada ao Atlântico.
Gosto das marcas do mar nas madeiras, nos materiais de construção. Falam uma língua antiga que eu conheço desde que me lembro.

20100521

Cartas


A última vez que recebi uma carta tua tinha prometido a mim mesmo ir à procura de tintas e materiais misteriosos para arranjar as madeiras. Arranjar qualquer coisa para sarar essas feridas que o mar provoca. Nunca cheguei a ir buscá-las à loja. Acho que as venderam ao Alemão da frente. Também nunca mais me escreveste. É impossível que tenha sido por isso. O que é um facto é que a porta dele brilha. E recebe cartas.

20100517

Sombras


«A partir de certa profundidade deixa-se de fazer ideias sobre as coisas. Elas próprias desaparecem dentro de si já que o tamanho depende do espaço entre elas ou delas em relação a si próprias». Digo-te isto porque te vejo a ir para outro lado, disse Inês pousando o corpo sobre o próprio corpo, como se por esse gesto fechasse alguma porta.
Talvez tivesse voltado para trás depois de se ter ido embora, apenas porque encontrou alguma coisa para dizer, ou se esqueceu dos cigarros sobre a mesa, ou de fechar a porta.
Ele levantaria então a cabeça e deixá-la-ia voar um pouco até ela, com os olhos fechados e as mãos sobre o rosto, que era o que sempre fazia quando falava. As palavras sairiam então acesas, cortadas por longos silêncios onde viriam à tona da fala tintas e búzios, planos secretos, palavras.
Ela acenderia então um cigarro e pousando-lhe as mãos sobre a cabeça ficaria por mais três meses, pousando o corpo sobre o corpo, como se fosse apenas por ser esse o tempo que levaria a fumá-lo.

20100513

Formas de abrir


Fico com as pestanas cheias de fios de aranha por causa da mania de espreitar por estas portas. Às vezes nem chego a tirá-los. Sento-me ao sol no chão mesmo ao lado e fecho os olhos.
Ponho os óculos escuros. Não me mexo. Acho que sonho. Devo sonhar, por causa das marcas.

20100510

Riscos


Tenho um problema. Às vezes tenho saudades do Ruinologias na sua versão I.
Sei quando tenho saudades quando por norma começo com o dedo a andar à volta sobre uma coisa e o olhar fica fixo. Depois o dedo pára de andar e o olhar move-se mas para se fixar noutra coisa que nem vejo. E depois noutra. E noutra.
Antes de escrever este arrazoado estava justamente a olhar para uma colagem com imagens do velho blog. Mais exactamente só com um olho porque o outro está semi-cerrado por causa do fumo do charuto que ficou esquecido nos lábios, o que me dá um ar meio de parvo meio pensativo.
Num daqueles extraordinários momentos de introspecção em que a cinza cai ao mesmo tempo que o telefone toca e lá do fundo me perguntam qualquer coisa que não ouço e peço para repetirem, tomei uma decisão: sucumbir. O resultado? É natural que isto passe a ter mais textos, menos fotografias, outro género de imagens… É possível que um dia destes dê com o dedo a andar à volta e o olhar fixo numa colagem … que volte a desaparecer tudo … Arrisco.