«A partir de certa profundidade deixa-se de fazer ideias sobre as coisas. Elas próprias desaparecem dentro de si já que o tamanho depende do espaço entre elas ou delas em relação a si próprias». Digo-te isto porque te vejo a ir para outro lado, disse Inês pousando o corpo sobre o próprio corpo, como se por esse gesto fechasse alguma porta.
Talvez tivesse voltado para trás depois de se ter ido embora, apenas porque encontrou alguma coisa para dizer, ou se esqueceu dos cigarros sobre a mesa, ou de fechar a porta.
Ele levantaria então a cabeça e deixá-la-ia voar um pouco até ela, com os olhos fechados e as mãos sobre o rosto, que era o que sempre fazia quando falava. As palavras sairiam então acesas, cortadas por longos silêncios onde viriam à tona da fala tintas e búzios, planos secretos, palavras.
Ela acenderia então um cigarro e pousando-lhe as mãos sobre a cabeça ficaria por mais três meses, pousando o corpo sobre o corpo, como se fosse apenas por ser esse o tempo que levaria a fumá-lo.