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20130116

Alexandria. Sonholências V



Alexandria. Preciso destes nomes antigos cujo aroma penso paradoxalmente sentir no cheiro molhado da terra.
 Digo paradoxalmente porque sei que Alexandria é um sítio onde raramente chove.
Há um tema para saxofone de Yan Garbarek onde isso acontece. Confesso que é a primeira vez que uma música me cheira a terra.

20121229

Como uma espécie de asa



Para que possamos tomar conhecimento dessa série de curiosas coincidências a que chamamos uma vida – esse voo tão breve – é necessário que alguns sulcos se tenham inscrito com um mínimo de profundidade num número considerável de livros, vidas, objetos, lugares.
 A evaporação desses sulcos deu lugar não raras vezes a delicadas aparições cuja luminosidade radica na exata proporção do seu quase desaparecimento.
Safo de Lesbos encontrar-se-á neste caso.
Tem sido repetido com alguma insistência o facto de a sua obra ter sido alvo da ferocidade cristã sob o pretexto de imoralidade.
Desse labor resultaram mutilações irrecuperáveis, desaparecimentos, adulterações várias. Em última análise, sem esse conjunto de circunstâncias estaria provavelmente privado de imaginar a poetisa como uma espécie de asa.

Texto revisto e reeditado.
A fotografia foi feita em Évora em dezembro de 2012. Não me foi possível apurar o autor da escultura.

20120927

Hammershöi




Acho que não sabes, mas já há algum tempo que vivo dentro de uma pintura de Hammershoi. Entrei nela num fim de tarde de Setembro e nunca mais me apeteceu sair. Tenho lá tudo o que preciso. Transporto-a nos olhos, de modo que anda sempre comigo.
Ao princípio pensei que isso ia ser um problema. Ver através de uma casa vazia e antiga e que ainda por cima não era minha. Não demorei muito a descobrir que essa espécie de lente era exactamente a minha dioptria.
(texto reeditado)

20120716

Esta noite sonhei com Magritte II



Reacendimentos (1)

1
Todas as raparigas que amei nunca mais as deixei sair da minha vida. Algumas nem devem ter reparado que eu existia.
São todas jovens espigas de trigo à maneira helénica. Tenho por hábito fechar os olhos de tempos a tempos e vê-las. Sem elas nunca teria crescido. Devem ter envelhecido como eu. Sento-me à sombra de um templo esquecido pelas multidões e sorrio. Sinto-me tão bem aqui, penso. Acho que dentro de mim elas se transformaram em colunas gregas.


2
Sempre que regresso a essa casa, fechando os olhos à medida que a reconstituo para depois os poder abrir, sou invadido por uma estranha serenidade, ou melancolia, que me provocam as coisas antigas.
Existem nessa casa inúmeros corpos. Sei que um deles é extraordinariamente belo, talvez traga ainda os sapatos na mão, e um colar de pérolas à cintura.
Como todas as recordações de infância, ele é branco, por vezes coberto por uma leve e dourada penugem.
A sua nudez é mínima. É no entanto isso que o torna numa pura recordação de beleza, e desejo, e luxúria.


3
Podes sempre agarrar em pequenas coisas e esquecer-te delas nos bolsos, ou a marcar páginas de livros.
Mais tarde transformar-se- ão em estranhas pedras brancas, como sirenes por entre o nevoeiro, ou rios.


4
Ia para Sesimbra no começo dos verões. Nesse tempo por qualquer razão o verão demorava mais tempo.
No liceu alguém me disse que alguém lhe tinha dito que gostavas de mim. Foi o suficiente para que as minhas borbulhas tomassem proporções gigantescas e tudo fizesse para desaparecer. Acho que tinha medo das raparigas.
Tinhas um café na estrada para Sesimbra. Os meus pais nunca descobriram porque ficava tão nervoso nessa recta. Porque precisavam de me dizer a mesma coisa três vezes.
Uma vez vi-te à porta. Estavas de pé à porta e nunca mais vi nada tão aterrador e tão belo.
Passado tanto tempo já nada existe, a não ser essa recta. Desapareceu tudo à volta. Sabes que quando lá passo ainda te vejo?


5
Ela volta-se para trás porque talvez tenha ouvido um remo na água, ou o som de um peixe a saltar a afaste momentaneamente da leitura. Fica a olhar porque lhe faz impressão. À medida que o barco se aproxima o homem vai diminuindo. E no livro estava escrito pela voz de uma personagem “há coisas que se afastam, outras que se aproximam, outras que não saem do mesmo sítio e desaparecem por isso.”

6
Conheço um pouco a antiga poesia mediterrânica árabe. Ser-me-ia talvez fácil, tanto quanto isso é possível, comparar a quase imperceptível contracção do teu colo àquela curva do rio no sentido da nascente.
Interpretaria o súbito arrepio da pele como fruto da chegada dos guerreiros, esse afloramento em tudo semelhante ao vento norte que faz subir as próprias águas.
Vim contudo de muito mais longe. Nesses lugares são desconhecidas estas espécies de tempestades.
De tão longe que após as actividades do amor não me importava que tudo cheirasse a feno. Esse calor que do teu corpo se desprende se transformasse na própria tarde para os meus lábios.

7
Existirá provavelmente uma predisposição dos meses para certos nomes. Junho é propício à inclinação dos corpos saindo de si mesmos, como Fevereiro o é às pequenas lesmas e aos animais celebrantes das chuvas e dos súbitos anoitecer.
De Julho diria como adormeço a adivinhar-te a curva dos joelhos.


8
Desenvolvi com o tempo a capacidade de olhar através das coisas. O efeito é curioso. Estou sentado numa esplanada e olho fixamente uma porta azul em frente. Como tenho saudades do verão, os veios e os nódulos aumentam de tal maneira que se transformam em enseadas e mapas secretos. São mapas secretos porque só eu os consigo atravessar. Até esses verões em que punha creme nívea em todo o lado menos na cara. E sabes porquê?
Ficava com sardas. Imaginava que gostavas de rapazes com sardas. Uma espécie de aparelho nos dentes, como todas as raparigas têm agora.
Nessa altura ainda havia enguias no rio. Apanhava-as e punha-as dentro de frascos. Também julgava que isso te impressionava.

9
Nunca soube verdadeiramente o teu nome, Marion. Acho que era um diminutivo e isso na altura chegava-me. Amei-te durante um Verão inteiro sem que desconfiasses. Uma noite em que tiveste frio emprestei-te a minha camisola alemã azul forte de marinheiro com fecho em cima que fazia gola alta. Dormiste toda a noite com ela, enroscada como uma gata. Sabes que ainda a tenho passado este tempo? Nunca a mandei lavar em Setembro, como era hábito. Ficou assim. Também nunca mais a vesti. Mudo-a às vezes de gaveta e aproveito para sonhar.



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   (1) Reacendimentos 

Estes textos são na sua maioria de difícil datação… ou porque correspondem a páginas extintas ou porque os sinto tanto que, mesmo antigos, se reacenderam, como é o caso do último que aqui ponho e é o mais antigo e o mais actual. Não me apetece reescrevê-los nem melhorá-los.

20120429

“Houve um dia, creio que se tratava de uma tarde de Abril, fria como as deste ano, em que percebi que tinha envelhecido sem remissão.” (*)

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Decidi então que a cada vez que ia ter contigo o faria como quem entra dentro de uma pintura de Costa Pinheiro. Prefiro que isso aconteça num quadro de um pintor que gostes. E assim faço quando te visito. E assim é. As maresias caiem bem a ambos, e nem sequer é por motivos diferentes. 

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(*) Título tirado deste excelente texto o-mes-de-abril-que-nao-regressa 
        clicar na ligação acima para abrir

20110924

"Os cavalos de Tarquínia"







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Pouco antes de o meu filho João nascer, decidiu-se que o sítio mais adequado para ficar em estado de espera seria no Luso, e assim sucedeu. Instalámo-nos no Luso durante meio verão e só saía do quarto do hotel para ir a Coimbra comprar livros da M. Duras. Voltava e lia-os. Em especial “O marinheiro de Gibraltar” e “Os cavalos de Tarquínia”, não me recordo do terceiro porque não deve ter corrido bem a leitura.
Saíamos do Luso, íamos a Coimbra comprar livros, voltávamos e liamo-los. Nunca mais voltei a estar grávido num verão. Nem a ter vontade de usar roupa tão clara, reparo agora olhando para as fotografias.

20110915

Títulos extraordinários a propósito de "A Ronda da Noite" e um beijo enorme para a Lígia

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Jantar num restaurante no Alentejo do qual já quase toda a gente saiu. O empregado vai baixando as luzes. Só já faltam duas mesas. Uma delas é a da frente que tinha uma indicação de reserva para a qual ninguém veio. A outra, cheia de copos, é a minha. Pago a conta e fico perto de vinte anos a pensar num bilhete deixado a propósito disso e a gozar comigo: “É a Ronda da Noite. Se fosse Rembrandt já não saia daqui” . Reflicto igualmente no facto de ter voltado e feito uma fotografia que pouco mudou em relação a esse dia.
O que se segue são três títulos imaginários e provavelmente muito densos a propósito dessa fotografia, da música de Rodrigo Leão em geral e da certeza que uma das pessoas mais elegantes que conheço a todos os níveis é uma miúda mais ou menos da minha idade que se chama Lígia Penim.
1
Ou quando te sentas e não dormes há quase dois dias. Podes escolher todos os motivos menos insónias porque ambos sabemos que não é isso.
2
Ou estabeleces uma linha para o silêncio a partir da qual ninguém entra e sabes que a ausência de ruído é uma coisa que só existe dentro de ti.
3
Ou um frio imenso que se põe à medida da noite e continuas a andar porque não és capaz de fazer o contrário disso. Sabes como é que costumam acabar estas histórias? Como quando se aluga um carro e se chega ao lado de lá depois de se ter atravessado os Estados Unidos.Com amigos.