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20140425

Esse sedimento de palavras cheias de coisas dentro.




Regresso  e agarro-me ao que me lembro como se isso me salvasse. E eu preciso cada vez mais de sons dentro da minha cabeça, sons de coisas que aí cresçam. Pode ser o nome de um livro, ou um excerto extraído talvez das suas páginas, não sei bem. Não tem a ver com o amor, não é um nome, não é o nome de ninguém.
Pode ser de um chá antigo, ou de uma rua, de um hotel que já desapareceu.
Se me esforçasse conseguiria saber o grau de humidade quase exata dos sítios onde dormi ao longo da minha vida. Dormir é uma atividade séria, adormecer em sítios desconhecidos requer que se confie, ou se esteja imensamente exausto, ou apaixonado, o que em termos de resultados é difícil de distinguir. De qualquer forma é a memória dessa humidade que me permite distinguir uma casa abandonada em Sintra ou em Avignon do quarto de um hotel em Istambul. Só depois vem a luz
Acho que consigo recordar o exato momento em que apaguei a luz em todos os quartos ou sítios onde adormeci. Em contrapartida dava tudo por saber que livros estava a ler, em que páginas exatas os interrompi.

Mais os livros que transportava dentro de mim. Só sei os livros que transportava dentro de mim depois. A  razão é que nem sempre coincidem com os livros que estava ou não a ler. Com o tempo tenho tendência  a ligar menos aos enredos e mais ao que deixam . Esse sedimento de palavras cheias de coisas dentro.

20120727

Um abrigo absoluto



Gosto desta fotografia antiga. Da sabedoria destes corpos protegendo-se do calor. Do sorriso da criança que uma quase apagada caligrafia no verso me diz ser eu.
A jovem mulher sob cujo corpo terei encontrado um abrigo absoluto e faz hoje 84 anos, tem um rosto tão belo que me encanta. Curiosamente são os braços que me seguram as pernas que me comovem.
É de qualquer modo estranho que seja a sombra que não se vê mas se pressente aquilo que mais me enternece. Adivinho por detrás da impaciência do fotógrafo um contratempo surgido da inflexível determinação de proteger do sol esta cria ainda tão jovem.

Noutro contexto, foi inicialmente publicada  aqui