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20120429

“Houve um dia, creio que se tratava de uma tarde de Abril, fria como as deste ano, em que percebi que tinha envelhecido sem remissão.” (*)

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Decidi então que a cada vez que ia ter contigo o faria como quem entra dentro de uma pintura de Costa Pinheiro. Prefiro que isso aconteça num quadro de um pintor que gostes. E assim faço quando te visito. E assim é. As maresias caiem bem a ambos, e nem sequer é por motivos diferentes. 

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(*) Título tirado deste excelente texto o-mes-de-abril-que-nao-regressa 
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20120403

Melancolia





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Quem nasce numa cidade portuária nunca chega verdadeiramente a sair dela. Transporta-a dentro de si como um nómada o deserto ou um náufrago o ultimo cigarro.
A sirene de um barco contém em si toda a melancolia do mundo, porque os grandes navios não chegam, apenas partem.
Aconteceu-me numa cidade estrangeira  ouvir esse som carregado de bruma no meio do intenso movimento dos carros e do ininterrupto ruído de fundo. Assim que me foi possível procurei o porto como quem procura droga, ou um bálsamo.
Esse bálsamo é triste e calmo. Uma mistura de melancolia e simultânea vontade de partir e de ficar. 

20110819

Errâncias

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Por uma natural inclinação de feitio próxima da melancolia ou da própria tendência das coisas para o desaparecimento, fixei-as desde que me lembro dentro de mim. É por isso que às vezes pareço pisar um mapa transparente, como quem segue um caminho feito de geografias secretas, errâncias invisíveis. Na realidade conheço na perfeição esses trilhos armadilhados de sardas e verões antigos. Guio-me pelos sulcos provocados pelo amor ou pela tristeza da sua partida. Curiosamente quer uns quer outros levam-me de volta ao mesmo sítio, talvez com maior exactidão os segundos. Acho que isso provavelmente se deve ao facto de os homens nunca deixarem de ser rapazes. Gosto de acreditar nisso. Apazigua-me.



20110718

Era Agosto e não havia mais ninguém na praia

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Uma vez, na costa vicentina, quando falar desse sítio era como estar a falar de estaleiros de reparação de barcos para quem não soubesse onde isso ficava, vi uma coisa vir com as marés, um pequeno ponto negro que se aproximava. Nessa altura tanto fazia que viesse ou que se afastasse …amávamo-nos. Depois viemos a verificar que era uma vaca virada de pernas ao alto e a boiar, que deu à costa sem pressa nem classe, uma das patas parecia um mastro, pelo que a confundimos com um barco e começámos a imaginar náufragos e a ficar arrepiados. Era Agosto e não havia mais ninguém na praia. E agora que morreste, Isabel, e sinto sempre uma tristeza infinda, sabes só o que queria? Que fosse Agosto e não houvesse mais ninguém na praia. Não me interessava se dessem ou não à costa uma ou cem vacas a boiar. Apenas queria que não houvesse mais ninguém na praia. Cinco minutos às três horas da tarde sem ninguém na praia. Depois podiam voltar. As vacas, os banhistas, os nadadores salvadores, o pó que fazem.

(para a Manuela Caldeira, que sabe ainda, talvez, como se chega até lá.)